segunda-feira, abril 21, 2008

Adoro a Florbela...confesso!

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A benção do Senhor em cada filho.


Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...


Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à «terra da verdade»...


Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.

Florbela Espanca

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.


Mário de Sá Carneiro

terça-feira, janeiro 29, 2008

O nosso adeus ao Fadista






O Feijão de Mourel parecia ter uma energia inesgotável. Os filhos nasciam pontualmente de dois em dois anos e a responsabilidade que sentia para que nada lhes faltasse fazia com que ele nunca parasse de procurar quaisquer possibilidade de negócio, fosse onde fosse, quer se tratasse de milho, de fruta, de carvão, de minério, de vinho ou de produtos para vender na mercearia ou na taberna.
Passava dias inteiros fora, comprando e vendendo. Por vezes saía a cavalo para a Serra. Passava a Arada, a Coelheira, o Gourim, Candal, Póvoa das Leiras, Tebilhão e todas as outras pequenas e pobres aldeias serranas onde se podia comprar volfrâmio de forma mais ou menos clandestina já que os grandes concessionários açambarcavam quase tudo com a protecção da GNR.
Nem o Inverno rigoroso que se fazia sentir naquele ano (1954?) o fez desistir de se meter à Serra. Montado na Andorinha, uma égua valente e de rara inteligência ( fina como um alho, como dizia o meu pai) e com a companhia do fiel Fadista lá foi, ainda os galos não tinham cantado.
Todo o dia choveu. Uma chuva gelada que se transformava em neve nas terras mais altas. O mau tempo antecipou a noite e ainda não eram cinco horas já não se via vivalma nas ruas da aldeia. O fumo que saía pelas chaminés dizia bem onde estava toda a gente; aconchegados junto à lareira enquanto as mulheres da casa tratavam da ceia. Em minha casa também havia uma boa fogueira mas no rosto da mãe havia uma sombra de preocupação. Nós éramos sete crianças irrequietas correndo pela enorme cozinha, pregando partidas uns aos outros e só quando a nossa barriga deu sinal que já estava na hora do caldo de couves e do bacalhau com batatas demos conta de que o nosso pai ainda não tinha chegado.
A tempestade de neve que se adivinhava na Serra tinha-o certamente atrasado e a lembrança das histórias de lobos esfaimados que se ouviam aos serranos que todos os dias passavam pela nossa loja, começaram a preocupar-nos, excepto aos mais novitos que continuavam inocentemente as suas traquinices. À medida que as horas passavam aumentava o nosso medo de que alguma coisa tivesse acontecido até que, já perto da meia noite, a nossa angústia terminou quando ouvimos o som das ferraduras da Andorinha golpearem as pedras da calçada.
Foi com alvoroço, ( até os mais pequenos, que já dormiam há muito, acordaram), que recebemos o nosso pai que vinha extenuado, completamente encharcado e enregelado. Enquanto ele procurava aquecer-se junto à lareira, nós pedíamos-lhe insistentemente que nos contasse todas as peripécias da sua viagem atribulada pela Serra. Foi preciso a mãe estabelecer um pouco de ordem para que nos acalmássemos e deixássemos o cansado viajante em paz para mudar de roupa e comer um caldo bem quente. Foi então que notámos que faltava o Fadista.
O meu pai só se lembrava que ele vinha muito cansado e coxeava tentando acompanhar o passo da égua através dos caminhos pedregosos e íngremes que desciam da Arada quando, depois de uma curva, deixou de o ver. O nevoeiro, a queda abrupta da noite e a chuva que caía ininterruptamente, tornaram muito difícil a tentativa que o meu pai fez para o tentar ajudar. Voltando atrás chamou por ele o mais alto que podia: Fadista! Fadista! mas não obteve resposta. Só o uivar do vento e o barulho da torrente que descia a Serra lhe responderam. A tempestava estava cada vez pior e a Andorinha começava também a sentir dificuldades para continuar a descer, escorregando por vezes nos restos de neve, lama e pedras que juncavam o perigoso trilho. O meu pai viu-se obrigado a deixar o velho cão para trás pois também ele estava em perigo.
Foi com imensa tristeza e com lágrimas nos olhos das crianças que fomos dormir. O Fadista era um cão especial. Muito meigo e simpático, estava sempre disposto para entrar nas nossas brincadeiras. Era muito fiel e bom cão de guarda e nós considerávamo-lo como um grande amigo.
De manhã cedo ouviu-se um gemido à porta de casa. Fomos a correr e deparámos com o Fadista que gania baixinho como se chorasse. Tinha o corpo coberto de feridas e o seu olhar denunciava um enorme sofrimento e um cansaço total. Parecia querer dizer: consegui chegar a casa porque queria morrer ao pé de vós.
Os lobos tinham-o atacado e ele, mesmo só e extenuado, conseguiu escapar-lhes e andar mais de dez quilómetros através da escuridão e do temporal para cumprir a última tarefa que o seu instinto, a sua inteligência ou o seu amor por nós lhe determinaram: chegar a casa.
Morreu algumas horas depois. Chorámos aquele amigo valente e dedicado. Para nós, crianças, tinha sido a primeira perda.
Sérgio Figueiredo