quinta-feira, dezembro 31, 2009

VELHO,MAS ÚTIL


Certo dia houve um leilão de mil e uma coisas, usadas, velhas e sem valor, que ia decorrendo como decorrem todos os leilões.

O velho e experiente leiloeiro com entusiasmo, destreza e contagiante alegria, ia fazendo o seu trabalho, na tentativa, nem sempre conseguida, de vender cada peça, pelo maior valor possível de euros.

---“ Esta peça é única, está um pouco velha e usada é verdade, mas já serviu de adorno num Palácio Senhorial, quem mais dá… está em trinta euros… trinta e cinco euros… trinta e cinco euros… uma… duas… quarenta euros… quarenta euros… uma…duas… três…. e, no mesmo instante bate com o martelo em cima da mesa, enquanto dizia para o seu auxiliar, com voz experiente e profissional: Para aquele Senhor, ali na segunda fila á direita “.

A segunda peça a ser leiloada era um velho violino que tinha sido de um grande violinista Austríaco.

Este velho violino já tinha sido jovem, já tinha corrido o Mundo da Opera.

Já tinha estado no Bolshoy Teatro em Moscovo.

No Metropolitan Opera na América, que é simplesmente o palco mais importante da Opera Mundial.

Tinha estado em França na Opera Garnier.

Em Inglaterra na Royal Opera House, principal local de apresentação de artes de Londres e uma das mais importantes do Mundo.

Na Alemanha na Alte Oper em Frankfurt, inaugurada em 1880, onde foi solista em “ Cármen “ de Bizet, entre outros clássicos, e lhe valeu uma estrondosa ovação durante meia hora, com os espectadores, entendidos na matéria, rendidos, felizes e de pé.

Na Áustria, berço da Opera e de famosos compositores como Mozart e Schubert entre outros, sendo Mozart o primeiro, mais famoso, prodigioso, fantástico e criador de sempre. Com as suas notas musicais, ora mais graves ora mais agudas, mais melodiosas a lembrar uma elegante dança Francesa do Século dezoito, ou mais bombásticas a lembrar uma batalha violenta, tinha extasiado milhares de admiradores da Opera.

Mas, agora estava velho, desafinado, cheio de pó, abandonado e prestes a ser leiloado.

--- “ Aqui está um violino que foi de um grande e virtuoso violinista, já correu o Mundo da Opera, está em cinquenta euros, base de licitação cinquenta euros, quem mais dá…”

Mas ninguém da assistência fazia a menor tentativa em licitar o velho, desafinado, empoeirado e abandonado violino, nem por um euro.

Mas eis que surge um Senhor de meia-idade, elegantemente vestido, de aspecto muito cuidado, que oferece pelo velho violino mil euros.

Ele sabia que iria dar nova vida àquele violino. Sabia que aquele violino era de muito boa qualidade e que era possível tirar dele e de novo aquelas notas musicais de fazer extasiar e transportar o espectador para um Mundo melhor, o da fantasia, da cultura, da alegria, bem-estar, de paz interior e purificação.

.Este Senhor foi ao encontro do leiloeiro que estava em cima de um pequeno palco, ao fundo da sala de leilões e, recebeu das mãos do leiloeiro o velho violino.

Com carinho limpou-lhe o pó, com sabedoria afinou-lhe as cordas e com saber começou a tirar notas melodiosas que encantavam toda a gente na sala.

De tal modo, que já havia na sala quem lhe quisesse comprar o velho stradivarius por quantia muito superior.

Também aqui as aparências ditam as suas leis…

A Sociedade só tem olhos para as coisas belas, esquecendo que as coisas velhas e rejeitadas por essa mesma Sociedade, também são belas e úteis, só é preciso dar-lhes uma oportunidade.


Mário Miranda

quinta-feira, dezembro 17, 2009

A EXAMINA

Se a escola era para mim uma fonte de alegria, onde aprendia, convivia, jogava à bola (até com o Professor), andava à bulha e, em resumo me divertia, a doutrina era uma grande seca. O que chamávamos doutrina era a catequese, nome mais moderno e mais chique, mas que só mais tarde entrou no vocabulário, muito simples mas também muito rico, das crianças das aldeias da Beira Alta.

Se na escola não tinha dificuldades em aprender e até me dedicava com algum entusiasmo nas aulas, na doutrina passava-se precisamente o contrário. Não sei se era o ambiente, mais sério e pesado, se eram os catequistas, geralmente austeros e tristes, se a matéria, para mim confusa e pouco atraente, a verdade é que nunca me entusiasmei ao ponto de me esforçar em aprender.

Se a escola culminava com os exames que nunca me assustaram (na Primária... depois as coisas complicaram-se), na doutrina havia quela coisa, que me provocava arrepios só de pensar nela, chamada examina. Até o nome estranho me aumentava a aversão. A Páscoa era uma festa bonita com muitas amêndoas e bolos e a visita pascal, pena que trouxesse agarrada a maldita examina.

No fim da Quaresma todos os jovens tinham que ir à Igreja Matriz prestar provas perante um Padre velho, carrancudo e severo; tratava-se do Padre João. Ele estava na Paróquia havia mais de trinta anos, a maioria das pessoas já não se lembrava do padre anterior e habituaram-se de tal maneira com ele que pensavam que os padres eram todos como o Padre João.

O seu mau feitio era conhecido de todos, até do diabo... Ele era o melhor e mais corajoso exorcista de toda a região e, segundo me diziam, porque nunca me deixaram assistir, ele vociferava de tal maneira e batia com tanta força no mafarrico ( ou seja, no desgraçado que diziam estar por ele possuído), que em poucas sessões conseguia que o demo desistisse e fosse atormentar gente de outras zonas onde os padres exorcistas não fossem tão ferozes como o nosso velho Abade.

Lembro-me de ter ido à examina quando tinha nove ou dez anos com um dos meus irmãos.

Partimos para Carvalhais como dois condenados e, com o andar lento e pesado que levávamos, demorámos quase uma hora a chegar. O que foi um mau começo, porque quando chegámos já passava da hora prevista, o que pôs alguma irritação na feia catadura do nosso examinador.

Como homem directo e austero que era, o Padre João entrou a matar. Estávamos pouco seguros mas fomos tentando responder às perguntas que, segundo ele, só podiam ter uma resposta clara e objectiva.

Quando tentávamos responder por pressupostos ou dúvidas ele cortáva-nos a palavra e dizia que o que estava no catecismo eram dogmas, palavra que, na minha expressão aflita, o Abade João viu que eu não conhecia, tendo-me então explicado que dogmas eram verdades absolutas e ele queria que lhe respondessem sim ou não,nunca talvez.

O exame não corria nada bem mas ainda piorou. Foi quando o Sr.Abade me pediu que lhe explicasse o mistério da Santísssma Trindade. Eu só me lembrava da lenda em que se conta que Santo Agostinho andava na praia a meditar e a tentar coompreender esse mistério quando encontrou um menino que com a concha da mão passava água do mar para uma pocinha que tinha feito na areia. O grande teólogo achou curiosa a azáfama do menino e perguntou-lhe o que estava a fazer. Este respondeu que ia tirar toda a água do mar para a sua pequena poça. O Sábio sorriu e disse ao menino que isso era impossível ao que a criança respondeu que também a cabeça de Santo Agostinho era demasiado pequena para nela caber todo o mistério da Santíssima Trindade. Não sei se a minha versão da história era a mais correcta mas o meu examinador, embora com ar contrariado, deixou-me contá-la quase até ao fim, altura em que me interrompeu para me dizer que não queria ouvir lendas ou historinhas mas apenas pretendia que eu lhe explicasse em que consistia o referido mistério.

Aí eu embatuquei. O meu irmão, que tinha estudado mais, tentou ajudar e começou a dar uma resposta mas, devido aos nervos, enredou-se de tal maneira no Espírito Santo, no Pai e no Filho que tudo acabou numa grande confusão.

O que mais temíamos estava a acontecer. O Sr Abade ficou vermelho de irritaçao e gritou: que parelha de palermas vocês me saíram. Primeiro faço a pergunta a um que fica mudo como uma pedra, depois responde o outro que mais valia ter ficado calado.

A examina prolongou-se ainda por mais alguns penosos minutos durante os quais a má disposição do Padre João contribuía para a nossa atrapalhação e vice-versa.

Chegámos, finalmente, ao momento do veredicto e, para as nossa pobres e simples cabecitas, este não podia ter sido mais terrível. O velho Abade pegou em cada um de nós pela gola do casaco e esfregou fortemente a nossa cara na pele de raposa da sua vetusta samarra. Foi a suprema humilhação e foi com lágrimas nos olhos que ouvimos o nosso algoz dizer: aqui vai uma raposa para cada um. Mereciam ainda mais por chegarem aqui sem saber nada.

Para mim, que na escola estava sempre entre os primeiros e que me habituara a ouvir os elogios de professores e colegas, foi um choque imenso receber assim um chumbo ou, como se dizia naquele tempo e o Padre João fizera questão de o reforçar simbólicamente, apanhar uma raposa.

No regresso a casa vingámo-nos do nosso severo Juíz dizendo o pior que conseguimos dele e da sua injustiça. No entanto, a nossa maledicência, mesmo que ele a tivesse ouvido, não lhe faria grande mossa de tal maneira eram ingénuas e frágeis as pragas que lhe rogámos. Tínhamos sido educados para respeitar. Respeitar toda a gente, especialmente os mais velhos, os pais, os avós, os tios, os professores e, muito lá em cima - como representante de Cristo na Terra- o Padre.

Em casa não contámos tudo, tentámos dourar a amarga pílula mas, para a nossa Mãe, que nos conhecia tão bem por dentro como por fora, dissemos o suficiente para ela compreender o tamanho do nosso vexame. Repreendeu-nos por não termos estudado mas, quando mais tarde acabámos por contar a esfregadela na pele da raposa, não se conteve e desatou a rir. Já o meu Pai e restantes irmãos não nos pouparam e passou a Páscoa e a Pascoela e eles continuaram a moer-nos a paciência rindo e brincando com o triste episódio da raposa na examina.




Sérgio Figueiredo

terça-feira, dezembro 15, 2009

PENSAMENTOS

Todos estamos matriculados na escola da vida onde o mestre é o tempo!

Envelhecer não é preocupante, ser olhado como velho é que o é!

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida

olhando-se para a frente!

Na juventude aprendemos, com a idade compreendemos!

Pessoalmente não tenho idade, tenho vida!

A vida não é curta, as pessoas é que ficam mortas tempo demais!

segunda-feira, março 16, 2009

QUADRAS POPULARES

Como se aproximam as festividades dos Santos Populares, lembrei-me de vos mostrar três quadras populares que, desajeitadamente, fiz um dia em que me apeteceu rimar.



Injustiça

Roubei-te um beijo um dia
Ficaste zangada comigo.
Que justiça tão mal feita
Pequeno crime... grande castigo!


Anseio

Meu amor que alegria
Andar contigo na Feira.
A fortuna que eu daria
P"ra viver à tua beira.


Os teus olhos

Teus olhos são estrelas brilhando
Na escuridão do meu penar.
Quem me dera viver cantando
Sob a luz do teu olhar.



Sérgio Figueiredo

sexta-feira, março 13, 2009



DEUS

AO MAR

O PERIGO E O ABISMO DEU...

MAS NELE É QUE ESPELHOU O CÉU

Pessoa

terça-feira, janeiro 13, 2009

Recolhas

Do que eram as nossas aldeias beirãs antigamente pouco resta. O tempo, lenta mas seguramente, tudo muda. Talvez cada um de nós possa fazer algo para preservar as tradições que se vão esquecendo a cada dia que passa.
Lembrei-me de pedir aos meus leitores e amigos que se lembrem de coisas antigas como quadras, cantigas, costumes, lendas, contos, etc. , façam o favor de as escrever nos comentários a este post, e eu publicá-los-ei neste blogue.
Para vos dar um exemplo de como se podem encontrar coisas magníficas pela sua genuinidade, graça (e vernaculismo neste caso, de que peço desculpa) aqui vai uma quadra que uma querida e saudosa velhinha de Lourosa ( Santa Cruz da Trapa ) costumava dizer quando, nas tardes de domingo, nos metíamos com ela e pedíamos que nos contasse velhas histórias.




A vida corre-me torta
Já perdi a esperança toda
Não se me dá de morrer
Quem cá ficar que se fôda