Certo dia houve um leilão de mil e uma coisas, usadas, velhas e sem valor, que ia decorrendo como decorrem todos os leilões.
O velho e experiente leiloeiro com entusiasmo, destreza e contagiante alegria, ia fazendo o seu trabalho, na tentativa, nem sempre conseguida, de vender cada peça, pelo maior valor possível de euros.
---“ Esta peça é única, está um pouco velha e usada é verdade, mas já serviu de adorno num Palácio Senhorial, quem mais dá… está em trinta euros… trinta e cinco euros… trinta e cinco euros… uma… duas… quarenta euros… quarenta euros… uma…duas… três…. e, no mesmo instante bate com o martelo em cima da mesa, enquanto dizia para o seu auxiliar, com voz experiente e profissional: Para aquele Senhor, ali na segunda fila á direita “.
A segunda peça a ser leiloada era um velho violino que tinha sido de um grande violinista Austríaco.
Este velho violino já tinha sido jovem, já tinha corrido o Mundo da Opera.
Já tinha estado no Bolshoy Teatro em Moscovo.
No Metropolitan Opera na América, que é simplesmente o palco mais importante da Opera Mundial.
Tinha estado em França na Opera Garnier.
Em Inglaterra na Royal Opera House, principal local de apresentação de artes de Londres e uma das mais importantes do Mundo.
Na Alemanha na Alte Oper em Frankfurt, inaugurada em 1880, onde foi solista em “ Cármen “ de Bizet, entre outros clássicos, e lhe valeu uma estrondosa ovação durante meia hora, com os espectadores, entendidos na matéria, rendidos, felizes e de pé.
Na Áustria, berço da Opera e de famosos compositores como Mozart e Schubert entre outros, sendo Mozart o primeiro, mais famoso, prodigioso, fantástico e criador de sempre. Com as suas notas musicais, ora mais graves ora mais agudas, mais melodiosas a lembrar uma elegante dança Francesa do Século dezoito, ou mais bombásticas a lembrar uma batalha violenta, tinha extasiado milhares de admiradores da Opera.
Mas, agora estava velho, desafinado, cheio de pó, abandonado e prestes a ser leiloado.
--- “ Aqui está um violino que foi de um grande e virtuoso violinista, já correu o Mundo da Opera, está em cinquenta euros, base de licitação cinquenta euros, quem mais dá…”
Mas ninguém da assistência fazia a menor tentativa em licitar o velho, desafinado, empoeirado e abandonado violino, nem por um euro.
Mas eis que surge um Senhor de meia-idade, elegantemente vestido, de aspecto muito cuidado, que oferece pelo velho violino mil euros.
Ele sabia que iria dar nova vida àquele violino. Sabia que aquele violino era de muito boa qualidade e que era possível tirar dele e de novo aquelas notas musicais de fazer extasiar e transportar o espectador para um Mundo melhor, o da fantasia, da cultura, da alegria, bem-estar, de paz interior e purificação.
.Este Senhor foi ao encontro do leiloeiro que estava em cima de um pequeno palco, ao fundo da sala de leilões e, recebeu das mãos do leiloeiro o velho violino.
Com carinho limpou-lhe o pó, com sabedoria afinou-lhe as cordas e com saber começou a tirar notas melodiosas que encantavam toda a gente na sala.
De tal modo, que já havia na sala quem lhe quisesse comprar o velho stradivarius por quantia muito superior.
Também aqui as aparências ditam as suas leis…
A Sociedade só tem olhos para as coisas belas, esquecendo que as coisas velhas e rejeitadas por essa mesma Sociedade, também são belas e úteis, só é preciso dar-lhes uma oportunidade.
Mário Miranda
