quarta-feira, dezembro 14, 2011
O TÓNIO...O SAUDOSO TÓNIO
Se bem me lembro, como dizia o velho Nemésio, o Tónio tinha a fama de ser o mais teimoso e o mais nervoso dos sete filhos nascidos da união entre a serena Odete e o elétrico António Feijão.
Quando alguma coisa ameaçava correr mal o Tónio entrava em stress. Uma vez, na minha primeira comunhão, ele estava ajoelhado ao meu lado na Igreja, perto do Altar Mor, na zona onde só os homens podiam estar. Pode parecer estranho aos mais novos mas, nesse tempo havia uma divisão- uma grade em madeira-no meio da Igreja e a parte de cima era para os homens e a de baixo para as senhoras. Todas as celebrações eram realizadas no Altar Mor, em latim e não havia instalação sonora. Fácil é imaginar que, especialmente quando a Igreja estava cheia, as mulheres quase não ouviam o que se passava lá em cima e muito menos entendiam porque o latim, já nesse tempo e naquelas paragens, só era entendido pelos padres e seminaristas.
Portanto, já que a minha Mãe e a Guida (irmã mais velha e sempre pronta a resolver os problemas dos mais novos), estavam proibidas de estar ao pé de mim, quem eu tinha para me apoiar naquele dia tão importante para mim,( pelo menos era o que repetidamente me diziam), em que estava atrapalhadissimo na minha roupa nova com uma faixa de cruzado e umas botas novas que me torturavam os pés, era o Tónio ainda mais nervoso que eu, embora isso me parecesse impossível. Eu tinha adquirido uma dificuldade em engolir quando estava nervoso, já não sei explicar bem o que se passava comigo, mas a minha garganta fechava-se e a razão das grandes preocupações do Tónio era o medo que ele tinha de eu dar escândalo ao cometer o maior pecado mortal alguma vez concebido, que consistia em cuspir a hóstia sagrada, ou seja, o corpo de Jesus Cristo.
Ele, em surdina, repetia-me as instruções que ele queria que eu seguisse com rigor. Quando o Senhor Abade me colocasse a hóstia na boca eu não poderia, em caso algum, tocar com os dentes nela porque isso era pecado. De seguida devia fechar a boca e engolir a hóstia discretamente.
O meu nervosismo atingiu o climax quando chegou a minha vez de me ajoelhar no Altar Mor e, depois de o Sacristão ter colocado uma pequena bandeja em cobre (esqueci-me do nome do objeto) bem debaixo do meu queixo, o Senhor Abade João Nepomuceno, nos seus paramentos dourados e com o seu semblante solene e austero, estendeu o braço e me depositou aquela rodelinha branca e insossa na boca.
Fechei a boca e voltei para o meu lugar onde ajoelhei sob o olhar preocupadíssimo do Tónio. Era necessário manter ( ou pelo menos aparentar) a calma e engolir aquele pedacinho de pão ázimo que começava, de uma forma alarmante, a colar-se ao meu céu da boca.
Já suava, embora para isso também contribuísse o calor e o ar quase irrespirável que se fazia sentir na Igreja, completamente cheia, e onde não havia janelas que se pudesssem abrir ou qualquer outro tipo de ventilação. O Tónio olhava-me fixamente temendo o pior. E o pior chegou em forma de vómito. A terrível e temida catástrofre ia acontecer quando o meu irmão me deu um apertão tão forte num braço que me obrigou a sufocar um grito mas que, talvez por milagre, resolveu todo o problema. Ainda com lágrimas nos olhos, respirei fundo, finalmente aliviado, olhei de soslaio para o Tónio e vi no seu rosto, agora calmo, um leve sorriso.
Quando finalmente, ao cabo de duas horas, acabou a cerimónia e eu saí para o adro, foi com uma alegria imensa que caí no meio da minha grande família que me acolheu como um pequeno herói. O Tónio, ao mesmo tempo que me dava uma discreta piscadela de olho, disse que eu me tinha portado muito bem. Mas o melhor veio a seguir. Fomos para debaixo dos enormes carvalhos do Passal e regalámo-nos com um almoço delicioso que melhor nos soube porque todos estávamos famintos. Ainda hoje a minha memória gustativa guarda o sabor daqueles pastéis de bacalhau. Nunca mais encontrei outros tão leves, tão gostosos. E o frango assado,os bolos e as outras iguarias de que já não me lembro, foram comidas com gosto e boa disposição e eu senti-me feliz por ter aquela família onde todos gostavam de mim. Até o Tónio, que antes me ralhara e me fizera aquela cara furiosa e zangada e de quem eu chegara a ter medo, era, afinal, um grande companheiro e amigo com quem eu sempre poderia contar.
Sérgio Figueiredo
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