quinta-feira, junho 13, 2013


                                    O MEIO-QUILO

 

 O seu nome era António Bento e ele bem o repetia na esperança que alguém o fixasse e, pelo menos uma vez, esquecesse a tão detestada alcunha com que uma alma penada certo dia lhe atirara: Oh…meio-quilo, queres trabalhar?

Fora o Ernesto da Custódia que, na taberna da aldeia,  precisando que lhe fossem sachar o milho do Lameiro Grande, que crescia a custo por entre as ervas, se lembrara, depois de rogar quase todos os presentes e nada ter conseguido, como último recurso, de atirar aquele convite à fraca figura que, encostada ao balcão, bebia deleitado o seu copo de vinho.

O Bento tossicou engasgado de tal maneira o surpreendera a frase desabrida do lavrador. Toda a aldeia sabia que ele fugia do trabalho como o diabo foge da cruz  e a tarefa que lhe era proposta, debaixo do sol impiedoso daquele Julho tão quente que as velhas juravam nunca ter visto igual, (embora a memória das velhas fosse muito curta),  fazia-o sentir-se mal só de pensar nela. Mas, o que mais o chocara, fora o nome que o outro lhe lançara: meio-quilo???

Ele que tinha medo de tudo e de todos, se fosse noutra altura teria deixado passar a humilhação da alcunha mas, o meio-quartilho daquele vinho que o “ Feijão” tinha trazido dos arredores de Viseu, um Dão com 13 graus, coisa nunca vista e muito falada  em terra de vinho fracote,  aqueceu-lhe o velho sangue de tal modo que, aprumando-se, e depois de ajeitar a sua velha gravata onde imensas nódoas de gordura surgiam rodeadas de pequeninos elefantes azuis, disse com ar solene e a voz ligeiramente embargada: Senhor Ernesto, saiba que estou comprometido para os próximos tempos o que me impede de trabalhar para o senhor. No entanto, nem esta resposta o senhor merecia porque me chamo António Bento, assim batizado na Igreja Matriz de Carvalhais, e o que vosmecê me chamou me ofende porque nunca fui meio e, apesar de pequeno, sempre fui um homem inteiro e completo.

Toda a gente, que quase enchia a pequena loja, ficou embasbacada. Nunca se pensara que tal fosse possível acontecer. O fraco e pobre Bento tinha enfrentado um dos homens mais ricos e arrogantes da terra e que tinha por costume rebaixar os mais fracos e bajular os mais poderosos.

Além disso o pequeno discurso do pequeno homem tinha soado como algo de belo e revolucionário no meio das conversas vulgares que todos usavam todos os dias e que sempre se referiam ao tempo que fazia ou ao míldio da batata ou da videira e se repetiam enfadonhamente. Quase bateram palmas mas a cara furibunda do Ernesto fê-los refrear o ímpeto.

Olha o “ merda - seca” que ficou ofendido! Pois agora eu te rebatizo meio-quilo e meio-quilo hás de ser para sempre.

O que se passou naquele dia tornou-se quase uma lenda que se contava ao serão ou quando se descascava o milho e, passados alguns anos,  toda a cena tinha mudado e estava de tal maneira mirabolante que,  quem a ouvia pela primeira vez, ria-se e não acreditava.  Mas,  para o Bento foi bom, pois passou a desfrutar da simpatia de muitos, especialmente dos mais pobres e subiu na consideração de quase todos. Não foi uma grande subida porque, naquela época, nas aldeias da Beira Alta, quem fosse apodado de malandro ou calão por não gostar de trabalhar era muito mal visto e criticado.  Mas, com o passar do tempo, o que ficou do episódio foi, unicamente, o anátema:  “meio-quilo”. E as crianças, inocentes mas cruéis, gritavam quando ele passava: Oh meio-quilo, vai trabalhar meio-quilo!

Sofreu muito o pobre, mas, como quase sempre acontece, habituou-se e deixou de reagir mal, embora defendendo o seu nome como a única riqueza que lhe restava.

Morava na casa em que nascera. Era pequenina e miserável, e nem era sua, mas adorava a casita que o abrigava e falava dela como se dum casarão se tratasse.  “Da minha varanda, (era na varanda que ele tinha mais vaidade), Senhora Detinha, às vezes, à noite, olho para a sua casa e penso: que estará aquela santa a fazer a esta hora?  Ponho-me a imaginar a senhora a aconchegar os cobertores aos seus meninos e a rezar por eles. Então eu dou comigo a sentir muita  inveja dos seus meninos Senhora Detinha, perdoe-me por esse pecado, é que eu nunca tive ninguém que gostasse de mim.”

A sua chegada a esta vida foi também a despedida da sua mãe, a Umbelina do Outeiro, que, cansada de trabalhar e ter filhos, entregou a alma ao Criador e deixou aquele ser pequenino e enfezado a lutar para não ir com ela. Conseguiu ficar, contra todas as expectativas,  mas, como castigo pela teimosia, teve sempre fome e pancada a dobrar. O pai, o Arlindo Bento, era trabalhador e poupado. Quando se casou tomou de renda as terras do Zé da Aldeia e, ao lado da Umbelina que ele adorava, deitou-se ao trabalho com todas as forças da sua mocidade. Nos primeiros anos ainda conseguiu amealhar uns tostões trazendo a fazenda do patrão num brinco mesmo que, para isso, tenha trabalhado como um desalmado. Mas, nos seguintes, as coisas começaram a correr mal. Com a chegada dos filhos anualmente, sem intervalos, a mulher já não podia andar sempre na labuta e por vezes, apesar do esforço insano, ele ficava quase sem nada depois de pagar a renda exorbitante que o arrogante Zé da Aldeia lhe exigia que era o que se chamava de terços, o que queria dizer dois terços para o patrão e um para o rendeiro.

Foi, no primeiro ano em que surgiram as dificuldades, como um condenado, cabeça baixa e chapéu na mão, bater à porta do patrão. Este, como já sabia o que ele queria, mandou a criada dizer que esperasse se quisesse porque o Senhor Zé estava na hora da sesta. E o Arlindo, amargurado, suspeitando já a resposta que o esperava, ficou mais de duas horas à espera até que o lavrador, com ar ensonado e aborrecido, lhe veio perguntar: - Então Arlindo, que diabo se passa que nem me deixas descansar em paz?

- Peço-lhe muita desculpa Senhor Zé mas eu preciso de falar consigo. É que a seca este ano não deixou que as espigas crescessem  e o milho que tenho no canastro é pouco. Se lhe dou os dois terços fico sem pão para os meus filhos. Se me deixasse ficar a metade era uma esmola que me fazia.

O dono das terras já estava habituado à miséria dos rendeiros e não se deixava comover.  - Já estava à espera que me viesses com essa conversa. Houve seca mas as minhas terras têm muita água. Tivesses tu aproveitado a regar como devias e não vinhas agora com pedinchices. Não te posso perdoar nada e se me quiseres entregar as terras até me fazes um favor. Tenho muita boa gente interessada nelas. Vai-te embora e aproveita o tempo em vez de vires para aqui passar a tarde como se fosses rico. 

Nos anos seguintes não voltou a pedir. Lá em casa habituaram-se à miséria e o Arlindo refugiou-se no vinho. Passou a descuidar-se com as terras  e como consequência os dois terços do Zé da Aldeia encolheram e, embora sabendo que ia condenar o caseiro e família à fome, tirou-lhe as terras.  Quando o nosso Meio-Quilo nasceu e a infeliz Umbelina foi a enterrar as coisas ainda pioraram.

O pai tornou-se alcoólico e vingava-se nos filhos pela má sorte que tivera dando-lhes pancada e gastando no vinho o pouco que devia ser para dar de comer às crianças.

As pessoas que viam aquela desgraça falavam e, algumas, tentaram ajudar os pequenitos. Os três mais velhos, (embora  mais velhos quisesse dizer 9, 10 e 11 anos), foram trabalhar de criados para lavradores da região que, além de ficarem bem vistos, até perante o padre, por este ato de “caridade”, passavam a ter em casa um empregado para todo o serviço pelo preço dos restos das suas refeições. Ficou ainda a Deolinda e o António que eram tão pequenos e magrinhos que quase desapareciam dentro das velhas roupas que os irmãos mais velhos tinham deixado .   Tiveram que suportar  a vida que o pai lhes dava ainda por vários anos.  Este andava quase sempre bêbado e pouco trabalhava. No meio dos vapores do álcool uma paixão lhe surgiu: a Deolinda. Em tudo lhe fazia lembrar a sua querida e saudosa Umbelina. Quando conseguia comprar um pão ou até um rebuçado ia para casa, quase esquecendo o vinho, para tudo dar à filha e ouvir o seu riso ou ver o brilho dos seus olhos castanhos e grandes como os da mãe.

E o António? Para esse não havia nada a não ser pancada. O Arlindo acusava-o de ter sido o causador da morte da mulher e castigava-o sem piedade. Em alguns momentos de lucidez tinha remorsos pelo que fazia à criança mas, para os esquecer, metia a garrafa à boca e tudo se apagava.

Nunca cresceu. Como consequência da fome teve  raquitismo e, quando tinha dez anos ainda parecia ter cinco. Foi nessa idade que a D. Ambrosina, brasileira de gema  recém chegada de São Paulo, o encontrou na rua e se chocou com aquela cara tão pequenina e tão triste. Chamou-o, e perante o ar assustado do rapazito, falou-lhe com a sua voz suave e o seu sotaque doce. O Tonito, sentiu o seu perfume, viu o seu belo rosto e a elegância do seu vestido e pensou que a Nossa Senhora tinha descido do céu para buscá-lo.

A  D. Ambrosina, para espanto de toda a gente, afeiçoou-se ao miúdo. O marido dizia-lhe: com tanta criança linda e limpa que para aí há, fostes logo gostar desse “mijangro” cheio de piolhos. Mas ele é tão  ” piquinino!” E soltava o seu riso alegre que deixava o Senhor Dionísio sem resposta senão o costumeiro encolher de ombros com que sempre acabava por aceitar as extravagâncias da mulher.

Aquela simpática mulher brasileira foi a sorte do Toninho, como ela o chamava. Arranjou-lhe roupas decentes, mandou que lhe cortassem as enormes guedelhas e que o lavassem. Foi uma transformação tal que, à primeira vista ninguém o reconheceu.

Passou a fazer pequenos recados para a D. Ambrosina e a comer os mesmos pitéus que os seus novos patrões e amigos. Engordou, tomou cores e quase ficou bonito.

Durante os três meses que o casal esteve na aldeia o Bento foi, pela primeira vez,  uma criança feliz. Quando a sua benfeitora lhe disse que se ia embora ele, antevendo a perda de todas as regalias e o regresso à fome e às tareias do pai, desatou numa choradeira tão grande que a boa senhora se comoveu.   Convenceu o marido a levá-lo para Lisboa e deixá-lo com um primo que lá tinha uma taberna. Embora contrariado, o Senhor Dionísio lá levou o “mijangro” (como sempre o chamava) com eles no comboio e largou-o na capital, aliviado por a mulher não lhe pedir para o levar para o Brasil.

E assim, aos 11 anos, o nosso amigo chegou à grande Lisboa e arregalou os olhos fascinado. Aquelas ruas tão bonitas, aquela gente toda tão bem vestida, tantos  automóveis ( que tinham aparecido pouco antes e eram a coqueluche da época) e a luz elétrica (outra novidade) e todos aqueles  edifícios enormes, deixaram-no a pensar que tinha vindo do inferno para o paraíso.  Não demorou muito a entender que também naquele paraíso havia muitos infernos. Teria gostado de ir ao porto despedir-se da sua adorada D. Ambrosina mas o seu novo patrão, que fora sempre muito simpático com ele enquanto os brasileiros estiveram por perto,  até se riu quando ele lhe veio com o pedido.  – Olha menino, se pensas que vieste para minha casa para passear tira daí o sentido. Aqui trabalhas de manhã até à noite para pagares o que comes. E só te aceitei porque devo favores ao meu primo porque senão, “engenegado” como tu és, não te queria nem para me limpares as botas.

Durante cinquenta anos, o Bento viveu a dura vida de marçano nos botecos de Lisboa. Ao fim de cinco anos de trabalho na taberna  do primo dos brasileiros e, depois de se aperceber que estava a ser explorado e escravizado por aquele sovina, conseguiu arranjar trabalho numa mercearia em Campo de Ourique. Embora ganhando muito pouco, sentiu-se feliz e livre. Tinha um horário que podia ser de doze horas mas, depois, podia ir para onde quisesse. Apesar de cansado ainda arranjava forças para brincar com os colegas da mesma idade, rir, correr e ver as raparigas e sonhar com elas e com um futuro cheio de felicidade.

Nem sempre os sonhos da juventude se tornam realidade e os dele também não. As moças riam-se da sua figura pequenina e pregavam-lhe partidas que, embora simples brincadeiras, acabavam por magoá-lo.

A sua primeira paixão foi a Rosinda. Minhota gordita e de faces rosadas, não sendo muito bonita, era alegre e simpática. Uma vez por semana o Tónio chegava àquela vivenda luxuosa onde ela trabalhava - derreado pelo pesado cabaz das mercearias - mas com o coração em festa porque ia ver a sua amada.   A Rosinda achava graça àquele caixeirito e à maneira apaixonada como ele a olhava e, quando ele se ia embora ria-se com as colegas  imitando os trejeitos do seu infeliz pretendente. Nunca arranjou coragem para lhe confessar o seu amor. O ar trocista e brincalhão da Rosinda deixavam antever as risadas que as suas palavras causariam.

Outros amores foram surgindo mas, por uma razão ou outra, o Bento viveu sempre sozinho.

Os anos passaram e a velhice  foi chegando trazendo consigo doenças e pobreza.  Naquele tempo quem não trabalhava não ganhava, quer estivesse doente ou não. Só os políticos mais sonhadores falavam em Segurança Social porque a maioria dos trabalhadores nem sabiam o que isso era.

Um dia o Bento decidiu regressar à terra que o vira nascer e onde nunca mais tinha posto os pés. Tinham passado 50 anos desde aquele dia em que, quase louco de alegria, tinha deixado aquela pequena aldeia onde tanto penara.

Nunca pensara voltar. Saudades só as tivera da sua irmã Deolinda e, quando soube da sua morte, (de parto como a mãe), mais firme ficara na sua vontade. Mas, “o homem põe e Deus dispõe” e ele pensou que só lá poderia sobreviver.

Foi muito difícil a sua readaptação à aldeia. Quase ninguém se lembrava dele ou, sequer, de ouvir falar dele.

Tudo tinha mudado. Dos irmãos não soube nada. Todos tinham partido e, depois, vivido ou morrido sem darem mais notícia. Valeu-se da sua experiência de vida para conseguir que o pequeno lugarejo o acolhesse. Procurou que lhe dessem trabalho junto das casa mais ricas e, com o seu vocabulário rebuscado aprendido com as freguesas mais chiques das mercearias de Lisboa, ofereceu os seus serviços no seu sotaque lisboeta.

Não teve grande sucesso. O trabalho que lhe ofereciam era a árdua labuta da terra e o velho e doente corpo do Bento já não aguentava coisa tão dura. Como recusou, ganhou a fama de não querer trabalhar de que nunca mais se livrou. Foi vivendo das pequenas economias que trouxera de Lisboa e do que lhe davam por fazer pequenos recados e por escrever cartas pois, naquele tempo, o analfabetismo era ainda um flagelo das nossas  aldeias onde muitos pais achavam um luxo mandar os filhos à escola.

Chegou à triste conclusão que a ideia da vida na aldeia, que guardara durante todos aqueles anos, não correspondia  completamente à realidade. Para além das coisas simples e bonitas havia também muita mesquinhez e preconceitos no proceder das pessoas. Se uma pessoa não fosse à missa todos os domingos ou se uma rapariga fosse vista a dar um beijo a um rapaz, ou se usasse uma saia mais curta, eram apontados, criticados e ostracizados.

No entanto, se um homem batesse todos os dias na mulher e nos filhos era bem tolerado porque estava no seu direito. Assim como aqueles que não deixavam as crianças ir à escola e os punham a trabalhar logo aos seis ou sete anos. Eram coisas que revoltavam o Bento mas que só a uma pessoa o podia confessar: a S.ra Detinha, a mulher do Feijão, dono do único comércio da aldeia. Era uma pessoa boa e compreensiva que sempre o ajudava com palavras de ânimo ou, quando as necessidades eram grandes, a matar-lhe a fome.  

O primeiro emprego que conseguiu foi o de Andador. Consistia ( e ainda consiste, embora de uma forma diferente) em avisar, o mais rapidamente possível, todos os irmãos da Irmandade da Senhora das Chãs que tinha morrido um confrade e, por isso, ficavam intimados a comparecer com a respetiva capa e opa no funeral respetivo. Eram muitas aldeias e muitos quilómetros que o pobre do Bento tinha que calcorrear quase a correr para que todos fossem avisados a tempo mas, no fim, quando se sentava na Loja do Feijão a descansar as pernas e a beber o seu meio quartilho, sentia-se satisfeito por ter cumprido a tarefa e por merecer a pequena féria que a Irmandade lhe iria pagar.

Quando se falava do meio-quilo, mesmo depois da sua morte, vinha sempre à baila um pequeno episódio que se passara nas Fragas, uma das mais ricas casas da aldeia, quando alguém lhe pediu para que ele fosse ajudar a carregar um carro de milho, ele inventou logo uma escapatória dizendo que a D.Mariquinhas, uma das suas benfeitoras, estava à espera que ele lhe levasse a peneira… ou o crivo. E, mesmo dali, pôs-se a gritar virado para o Outeiro onde ficava a casa da dita senhora: Oh D.Mariquinhas! É o crivo ou a peneira? Claro que nem com um megafone a voz do Bento se faria ouvir a tal distância e este expediente do velhote passou a ser a sua imagem de marca, como hoje se diria, e, cada vez que era evocado  fazia rir toda a gente.

Foram passando os anos e as dificuldades do nosso amigo foram aumentando. Muitos dos que antes o ajudavam cansaram-se das suas lamúrias e deixaram de o fazer. A D. Mariquinhas faleceu e tudo piorou. Embora nunca tivesse sido muito religioso, como agora, a bem dizer, trabalhava para a Nossa Senhora, um dia, depois de mais um enterro, ficou sozinho na capela, que o tinham encarregado de fechar, e lembrou-se de falar com a patroa. Contou-lhe toda a sua vida, exagerou na sua fome e nas doenças e pediu-lhe, encarecidamente, uma ajudinha em nome do filho dela que estava no Céu. 

Ele acreditou que, por ter feito um discurso tão bonito à Senhora e ter descrito as suas desgraças com tanto sentimento e tanta lágrima,  Ela não podia deixar de mover céus e terras para o ajudar. E mais convencido disso ficou quando aquilo aconteceu.

Aquele dia amanheceu frio,  iluminado por um sol envergonhado.  A geada deixara tudo branco fazendo lembrar a sua prima neve.  Quem podia ficar mais um pouco em vale de cobertas não se fazia rogado. Foi o caso do meio-quilo que, depois de acordar e pressentir o que ia lá fora, deu meia volta na cama e voltou a adormecer.

Quando acordou já a manhã ia a meio. Saiu, pouco depois, para ir à loja do Feijão comprar 500 gramas ( nunca mais tinha dito meio-quilo ) de arroz para fazer um estrugido com meia chouriça que lhe tinham dado na véspera como paga por ter escrito uma carta para  Lisboa.

Apertou o velho casaco e começou a caminhar depressa para espantar o frio quando sentiu um forte cheiro a queimado. Levantou os olhos e logo viu que da casa do Zé da Ângela, que ficava no fim da rua, saía fumo. Aproximou-se a correr e viu que além do fumo já se viam pequenas línguas de fogo a sair do telhado. Gritou: há fogo! há fogo! Mas logo se apercebeu que o som que saía da sua velha garganta não conseguia chamar ninguém porque a aldeia, àquela hora, estava deserta- toda a gente andava nas hortas e nos lameiros a trabalhar- inclusive o dono da casa que todas as manhãs saía cedo para a Quinta das Bouças.  Começou a correr mas parou de imediato porque lhe pareceu ouvir gritos vindos da casa.  Lembrou-se então dos filhos do casal e compreendeu a tragédia que estava prestes a acontecer. Chamou pelos nomes deles e a resposta foi um choro lancinante.  As crianças eram muito pequenas e, sem ajuda, nunca conseguiriam sair do inferno em que a casa se transformara.

Nunca fora corajoso. Tinha que admitir que era até um pouco medroso. Mas naquele momento pensou que tinha que ir buscar coragem ao fundo da sua alma porque, se fugisse, morreria de vergonha.

Decidido subiu as escadas e empurrou a porta que estava fechada.  Ficou furioso com aqueles pais que deixavam assim os filhos e continuou a empurrar a porta até que ela cedeu e deixou passar um rolo de fumo tão espesso e tão quente que o Bento caiu.  Levantou-se e, pondo o casaco à frente da cara para conseguir respirar, já dentro da casa, tentou orientar-se pelo choro dos miúdos. Encontrou-os abraçados, num quarto, rodeados de fumo e chamas. Disse-lhe umas palavras de conforto e, pegando na menina ao colo e o rapazito pela mão, levou-os pelo corredor que se transformara num mar de chamas.  Chegaram à porta com as roupas a arder mas por sorte ou por interferência da Nossa Senhora das Chãs, estavam a chegar dois homens com baldes cheios de água que logo despejaram sobre eles. Vieram para a rua cansados, ainda assustados, enfarruscados e chamuscados mas vivos.

Naquele momento chegou o Zé da Ângela com a mulher em altos gritos e com as mãos na cabeça.  Depararam com a casa completamente destruída mas, quando viram os filhos, abraçaram-nos a chorar de alegria.

A partir desse dia muita coisa mudou, para melhor, na vida do António Bento.  Toda a gente se mostrava disponível para o ajudar e se alguém, pela força do hábito, o chamava meio-quilo, ficava sujeita a uma cotovelada, ou um beliscão ou mesmo um pontapé vindo da pessoa do lado porque não se podia, agora, ofender o herói da aldeia.

A sua fotografia saiu na primeira página do jornal da vila e, na completa reportagem que a acompanhava, fazia-se o elogio do bravo, do corajoso, do intrépido “Senhor António Bento”. Finalmente tinha reconquistado o seu nome e a sua dignidade.

Morreu poucos anos depois, em paz consigo e com a sua querida aldeia.

 
 

                                                         Sérgio Figueiredo
 
 
(1ºPrémio na categoria "Conto" nos Jogos Florais AATIB de 2013)