segunda-feira, junho 09, 2014




                                                          

                                                            Eu estive lá, de corpo e alma!


 

                  Quando saí para a rua estava confuso, nervoso  e expectante. Só sabia que havia na Baixa uma grande confusão que metia militares com tanques de guerra. Alguém me tinha falado de comunicados ouvidos na rádio mas eu tinha tido tanto trabalho  que não pude dar atenção a nada senão a rumores que passavam de boca em boca onde aparecia uma palavra terrivelmente subversiva, perigosa e excitante: revolução.

                  Não estava com paciência para esperar autocarros e desci  a Avenida da Liberdade quase a correr. Já passava das três da tarde quando cheguei aos Restauradores onde comecei  a aperceber-me de que algo importantíssimo estava a acontecer mas, foi no Rossio que tive um choque. Havia tanques de guerra  com jovens militares sorridentes que deixavam que os populares, que os rodeavam às centenas ou milhares, os abraçassem e lhe colocassem cravos no cano das espingardas.  As pessoas riam, gritavam e cantavam. Nunca tinha visto nada que, remotamente, se comparasse àquele ambiente.

                  Durante algum tempo juntei-me a um grupo que distribuía cravos e sorrisos, percorrendo a Praça da Figueira e o Largo de S. Domingos, e cantei com eles: “Canta amigo canta, vem cantar a nossa canção, tu sozinho não és nada, juntos teremos o mundo na mão”. ( a essa hora. ainda Grândola não era o hino que viria a ser).

                  A sorte da revolução ainda era incerta. O Marcelo Caetano estava no Carmo cercado mas nós, o povo, não sabíamos que trunfos ele ainda podia jogar, nem que perigo estávamos a correr naquele momento se houvesse uma resposta violenta dos militares afetos ao regime. Estranhamente, não havia medo mas sim alegria e uma certeza na vitória que, pode, agora, parecer irracional. Se doze horas antes praticasse-mos qualquer daqueles  atos, fosse gritar liberdade ou cantar aquela canção na rua ou, simplesmente, estar num aglomerado de pessoas a fazer barulho, seríamos presos e interrogados pela PIDE. Subitamente tudo mudara e eu  vivia aqueles momentos sem compreender bem o que se estava a passar e com medo que tudo não passasse de um sonho.

                    Segui a onda de gente que se dirigia ao Largo do Carmo onde tudo se decidiria.  Com dificuldade, consegui chegar ao cimo da Calçada do Carmo e ter uma visão de quase toda a praça.  Estavam os militares em frente ao Quartel e atrás e ao lado e em cima das árvores e até empoleirados nos carros de combate  estava o povo que queria dizer aos seus heróis que estava ali para os apoiar.  Creio que o entusiasmo era tanto que levava as pessoas a estarem com os militares “para o desse e viesse” mesmo que isso significasse arriscar a própria vida.

                     A exaltação, a emoção e o fervor patriótico tomou conta de todos e penso que poucas vezes se viveu em Portugal um momento histórico   com tão grande intensidade dramática.  Talvez o povo de Lisboa possa ter vivido situações semelhantes quando, em 1383, após a morte do Conde Andeiro, aclamou D. João, Mestre de Avis, como Rei de Portugal. Ou quando, em 1640 gritou Independência e jurou dar a vida por ela. Ou, ainda, quando, em 1910, participou  na implantação da Republica. No entanto, dessas vezes, eu não estava lá. Mas, agora, eu estava e fazia parte daquele povo e sentia todos e os mesmos sentimentos que viviam os milhares de portugueses que preenchiam todos os centímetros daquela Praça magnífica. Mesmo quando Salgueiro Maia, talvez o mais corajoso  e também o mais modesto capitão de  Abril,  mandou abrir fogo sobre a fachada do Quartel do Carmo, ninguém arredou pé.

                     As horas que se seguiram foram vividas numa expectativa incrível. Lembro-me do discurso inflamado do Dr. Sousa Tavares e da chegada do General Spínola. Quando, quase ao fim do dia, as portas  do Quartel finalmente se abriram para deixar sair o Chaimite que transportava Marcelo Caetano, foi o climax vivido em euforia, acontecia ali o desfecho tão esperado que representava o fim de uma ditadura de 40 anos.

                       Apesar de tudo o que vira e sentira não consegui esquecer que tinha deixado trabalho por acabar e que o meu patrão não podia ficar prejudicado por ter acontecido uma revolução, mesmo que essa revolução fosse a coisa mais linda e importante a que eu assistira em toda a minha vida . Assim, com o coração em festa, subi a Avenida e mergulhei alegremente no trabalho, convencido que algo incrivelmente bom tinha acontecido e que, no dia seguinte, me esperava  uma vida nova num Portugal novo, onde toda a esperança faria sentido.

 

 Sérgio Figueiredo


quinta-feira, abril 10, 2014

 
 
 

Naquele dia, de todos o mais belo…

 
… os heróis chegaram de madrugada
E com o brilho intenso dos seus olhos puros
Varreram as trevas velhas e podres
Que nos tapavam o horizonte e a esperança.
 
Naquele dia, de todos o mais belo…
…o povo saiu à rua e as suas gargantas,
(Que se julgavam mudas),
entoaram cânticos sublimes que falavam de fraternidade e alegria
e soltaram um grito imenso:
Liberdade, Liberdade, Liberdade.
 
Naquele dia, de todos o mais belo…
…nasceu um anseio  em cada peito
E a felicidade foi o destino a cumprir.
Parte do sonho foi por nós vivido
Outra parte terá morrido.
 
Mas a chama acesa naquele dia…
De todos o mais belo…
Permanece rubra e incandescente
Para incendiar os corações
E guiar a brava gente
Rumo a um glorioso futuro.
 
Sérgio Figueiredo