Eu estive lá, de corpo e alma!
Quando saí para a rua estava confuso, nervoso e expectante. Só sabia que havia na Baixa uma
grande confusão que metia militares com tanques de guerra. Alguém me tinha
falado de comunicados ouvidos na rádio mas eu tinha tido tanto trabalho que não pude dar atenção a nada senão a
rumores que passavam de boca em boca onde aparecia uma palavra terrivelmente
subversiva, perigosa e excitante: revolução.
Não
estava com paciência para esperar autocarros e desci a Avenida da Liberdade quase a correr. Já
passava das três da tarde quando cheguei aos Restauradores onde comecei a aperceber-me de que algo importantíssimo
estava a acontecer mas, foi no Rossio que tive um choque. Havia tanques de
guerra com jovens militares sorridentes
que deixavam que os populares, que os rodeavam às centenas ou milhares, os abraçassem
e lhe colocassem cravos no cano das espingardas. As pessoas riam, gritavam e cantavam. Nunca
tinha visto nada que, remotamente, se comparasse àquele ambiente.
Durante algum tempo juntei-me a um grupo que distribuía cravos e sorrisos,
percorrendo a Praça da Figueira e o Largo de S. Domingos, e cantei com eles:
“Canta amigo canta, vem cantar a nossa canção, tu sozinho não és nada, juntos
teremos o mundo na mão”. ( a essa hora. ainda Grândola não era o hino que viria
a ser).
A sorte da revolução ainda era
incerta. O Marcelo Caetano estava no Carmo cercado mas nós, o povo, não sabíamos
que trunfos ele ainda podia jogar, nem que perigo estávamos a correr naquele
momento se houvesse uma resposta violenta dos militares afetos ao regime.
Estranhamente, não havia medo mas sim alegria e uma certeza na vitória que,
pode, agora, parecer irracional. Se doze horas antes praticasse-mos qualquer
daqueles atos, fosse gritar liberdade ou
cantar aquela canção na rua ou, simplesmente, estar num aglomerado de pessoas a
fazer barulho, seríamos presos e interrogados pela PIDE. Subitamente tudo
mudara e eu vivia aqueles momentos sem
compreender bem o que se estava a passar e com medo que tudo não passasse de um
sonho.
Segui a onda de gente que se dirigia ao
Largo do Carmo onde tudo se decidiria. Com dificuldade, consegui chegar ao cimo da
Calçada do Carmo e ter uma visão de quase toda a praça. Estavam os militares em frente ao Quartel e
atrás e ao lado e em cima das árvores e até empoleirados nos carros de
combate estava o povo que queria dizer
aos seus heróis que estava ali para os apoiar.
Creio que o entusiasmo era tanto que levava as pessoas a estarem com os
militares “para o desse e viesse” mesmo que isso significasse arriscar a
própria vida.
A
exaltação, a emoção e o fervor patriótico tomou conta de todos e penso que
poucas vezes se viveu em Portugal um momento histórico com tão
grande intensidade dramática. Talvez o
povo de Lisboa possa ter vivido situações semelhantes quando, em 1383, após a
morte do Conde Andeiro, aclamou D. João, Mestre de Avis, como Rei de Portugal.
Ou quando, em 1640 gritou Independência e jurou dar a vida por ela. Ou, ainda,
quando, em 1910, participou na
implantação da Republica. No entanto, dessas vezes, eu não estava lá. Mas,
agora, eu estava e fazia parte daquele povo e sentia todos e os mesmos
sentimentos que viviam os milhares de portugueses que preenchiam todos os
centímetros daquela Praça magnífica. Mesmo quando Salgueiro Maia, talvez o mais
corajoso e também o mais modesto capitão
de Abril, mandou abrir fogo sobre a fachada do Quartel
do Carmo, ninguém arredou pé.
As
horas que se seguiram foram vividas numa expectativa incrível. Lembro-me do
discurso inflamado do Dr. Sousa Tavares e da chegada do General Spínola.
Quando, quase ao fim do dia, as portas
do Quartel finalmente se abriram para deixar sair o Chaimite que
transportava Marcelo Caetano, foi o climax vivido em euforia, acontecia ali o
desfecho tão esperado que representava o fim de uma ditadura de 40 anos.
Apesar de tudo o que vira e sentira não consegui esquecer que tinha
deixado trabalho por acabar e que o meu patrão não podia ficar prejudicado por
ter acontecido uma revolução, mesmo que essa revolução fosse a coisa mais linda
e importante a que eu assistira em toda a minha vida . Assim, com o coração em
festa, subi a Avenida e mergulhei alegremente no trabalho, convencido que algo
incrivelmente bom tinha acontecido e que, no dia seguinte, me esperava uma vida nova num Portugal novo, onde toda a
esperança faria sentido.
Sérgio Figueiredo
