Se a escola era, para
mim, uma fonte de alegria, onde aprendia, convivia, jogava à bola ou andava à
bulha e, em resumo, me divertia, já a doutrina era uma grande seca. O que
chamávamos doutrina era a catequese, nome mais moderno e mais chique, mas que
não fazia ainda parte do vocabulário simples mas típico das crianças da Beira
Alta.
Se na escola não tinha
dificuldades em aprender e até me dedicava com algum entusiasmo nas aulas, na
doutrina passava-se precisamente o contrário. Não sei se era o ambiente, mais
sério e pesado, se eram os catequistas, geralmente austeros e tristes, se a
matéria, para mim confusa e pouco atraente, a verdade é que nunca me
entusiasmei ao ponto de me esforçar em aprender.
Se a escola culminava com os exames, que a mim nunca me assustaram (na Primária… depois as coisas complicaram-se) na doutrina havia aquela coisa, que me provocava arrepios só de pensar nela: a examina. Até o nome estranho (feminino de exame?) me aumentava a aversão. A Páscoa era uma festa bonita com muitas amêndoas, bolos e a sempre interessante visita pascal, pena que trouxesse implícita a maldita examina.
Se a escola culminava com os exames, que a mim nunca me assustaram (na Primária… depois as coisas complicaram-se) na doutrina havia aquela coisa, que me provocava arrepios só de pensar nela: a examina. Até o nome estranho (feminino de exame?) me aumentava a aversão. A Páscoa era uma festa bonita com muitas amêndoas, bolos e a sempre interessante visita pascal, pena que trouxesse implícita a maldita examina.
No fim da Quaresma todos
os jovens tinham que ir à Igreja Matriz prestar provas perante um padre
carrancudo e severo: tratava-se do Padre João Nepomuceno que estava na paróquia
havia mais de trinta anos. A maioria das pessoas já não se lembrava do padre
anterior e habituaram-se de tal maneira com ele que já pensavam que todos os
padres eram como o velho Padre João. O seu mau feitio era
conhecido de todos, até do diabo…Ele era o melhor e o mais corajoso exorcista
de toda a região e, segundo me diziam, porque nunca me deixaram assistir, ele
vociferava de tal maneira e batia com tanta força no mafarrico (ou seja, no
desgraçado que diziam estar por ele possuído), que em poucas sessões conseguia
que o demo desistisse e fosse atormentar gente de outras zonas onde os padres
exorcistas não fossem tão ferozes como o nosso abade.
Lembro-me de ter ido à
examina quando tinha 9 ou 10 anos com o meu irmão. Partimos para Carvalhais
como dois condenados e, com o andar lento e pesado que levávamos demorámos
quase uma hora a chegar. O que foi um mau começo, porque quando chegámos já
passava da hora prevista, o que pôs alguma irritação na feia catadura do nosso
examinador.
Como homem direto e
austero que era, o Padre João entrou a matar. Estávamos pouco seguros mas fomos
tentando responder às perguntas que segundo ele só podiam ter uma resposta
clara e objetiva. Quando tentávamos
responder por pressupostos ou dúvidas ele cortava-nos a palavra e dizia que o
que estava no catecismo eram dogmas, palavra que na minha expressão aflita, o
Abade João viu que eu não conhecia, tendo-me então explicado que dogmas eram
verdades absolutas e ele queria que lhe respondessem sim ou não, nunca talvez.
O exame não corria nada
bem mas ainda piorou. Foi quando o Sr. Abade me pediu que lhe explicasse o
mistério da Santíssima Trindade. Eu só me lembrava da lenda em que se conta que
Santo Agostinho andava na praia a meditar e a tentar compreender esse mistério
quando encontrou um menino que com a concha da mão passava água do mar para uma
pocinha que tinha feito na areia. O grande teólogo achou curiosa a azáfama do
menino e perguntou-lhe o que estava a fazer. Este respondeu que ia tirar toda a
água do mar para a sua pequena poça. O Sábio sorriu e disse ao menino que isso
era impossível ao que a criança respondeu que a cabeça de Santo Agostinho era
demasiado pequena para nela caber todo o segredo da Santíssima Trindade. Não
sei se a minha versão da história era correta mas o meu examinador, embora com
ar de contrariado, deixou-me contá-la quase até ao fim, altura em que me
interrompeu para me dizer que não queria ouvir lendas mas apenas pretendia que
eu lhe explicasse em que consistia o referido mistério. Aí eu embatuquei. O meu
irmão, que tinha estudado mais, tentou ajudar e começou a dar uma resposta mas,
devido ao seu estado nervoso, enredou-se de tal maneira no Espírito Santo, no
Pai e no Filho que tudo acabou numa grande confusão.
O que mais temíamos estava
a acontecer. O Sr. Abade ficou vermelho de irritação e fez ecoar a sua voz
tonitruante na grande igreja vazia: - que parelha de palermas vocês me saíram.
Primeiro faço a pergunta a um que fica mudo como uma pedra, depois responde o
outro que mais valia ficar calado.
A examina prolongou-se ainda por mais
alguns penosos minutos durante os quais a má disposição do Padre João contribuía
para a nossa péssima prestação e vice-versa. Chegámos, finalmente, ao momento
do veredito e, para as nossas simples e pobres cabecitas, este não podia ter
sido mais terrível. O velho Abade pegou em cada um de nós pela gola do casaco e
esfregou fortemente as nossas caras na
pele de raposa da gola da sua vetusta samarra.
Foi a suprema humilhação e foi com lágrimas nos olhos que ouvimos o
nosso algoz dizer: - aqui vai uma raposa para cada um. Mereciam
ainda mais por chegarem aqui sem saberem nada.
Para mim, que na escola
estava sempre entre os primeiros e que
me habituara a ouvir os elogios de professores e colegas, foi um choque imenso receber assim um chumbo
ou, como se dizia naquele tempo e o Padre fizera
questão de o reforçar simbolicamente, apanhar uma raposa.
No regresso a casa vingámo-nos
do nosso severo juiz dizendo o pior que conseguimos dele e da sua injustiça. No
entanto, a nossa maledicência, mesmo que ele a tivesse ouvido, não lhe teria
feito grande mossa de tal maneira eram ingénuas e frágeis as pragas que lhe
rogámos. Tínhamos sido educados para respeitar. Respeitar toda a gente,
especialmente os mais velhos, os pais, os avós, os tios, os professores e,
muito lá em cima – como representante de Cristo na Terra- o Padre.
Em casa não contámos tudo. Tentámos dourar a amarga
pilula mas, para a nossa Mãe, que nos conhecia tão bem por dentro como por
fora, dissemos o suficiente para ela compreender o tamanho do nosso vexame.
Repreendeu-nos por não termos estudado mas quando, mais tarde, acabámos por
contar a esfregadela na pele da raposa, não se conteve e desatou a rir. Já o meu Pai e os outros irmãos (éramos sete ao todo) não nos
pouparam e passou a Pascoa e a Pascoela e eles continuavam a moer-nos a
paciência rindo e brincando com o triste episódio da raposa na examina.
Sérgio Figueiredo