domingo, novembro 06, 2016

A RAPOSA


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                         Se a escola era, para mim, uma fonte de alegria, onde aprendia, convivia, jogava à bola ou andava à bulha e, em resumo, me divertia, já a doutrina era uma grande seca. O que chamávamos doutrina era a catequese, nome mais moderno e mais chique, mas que não fazia ainda parte do vocabulário simples mas típico das crianças da Beira Alta.
                        Se na escola não tinha dificuldades em aprender e até me dedicava com algum entusiasmo nas aulas, na doutrina passava-se precisamente o contrário. Não sei se era o ambiente, mais sério e pesado, se eram os catequistas, geralmente austeros e tristes, se a matéria, para mim confusa e pouco atraente, a verdade é que nunca me entusiasmei ao ponto de me esforçar em aprender.
                        Se a escola culminava com os exames, que a mim nunca me assustaram (na Primária… depois as coisas complicaram-se) na doutrina havia aquela coisa, que me provocava arrepios só de pensar nela: a examina. Até o nome estranho (feminino de exame?) me aumentava a aversão. A Páscoa era uma festa bonita com muitas amêndoas, bolos e a sempre interessante visita pascal, pena que trouxesse implícita a maldita examina.
                       No fim da Quaresma todos os jovens tinham que ir à Igreja Matriz prestar provas perante um padre carrancudo e severo: tratava-se do Padre João Nepomuceno que estava na paróquia havia mais de trinta anos. A maioria das pessoas já não se lembrava do padre anterior e habituaram-se de tal maneira com ele que já pensavam que todos os padres eram como o velho Padre João. O seu mau feitio era conhecido de todos, até do diabo…Ele era o melhor e o mais corajoso exorcista de toda a região e, segundo me diziam, porque nunca me deixaram assistir, ele vociferava de tal maneira e batia com tanta força no mafarrico (ou seja, no desgraçado que diziam estar por ele possuído), que em poucas sessões conseguia que o demo desistisse e fosse atormentar gente de outras zonas onde os padres exorcistas não fossem tão ferozes como o nosso abade.
                        Lembro-me de ter ido à examina quando tinha 9 ou 10 anos com o meu irmão. Partimos para Carvalhais como dois condenados e, com o andar lento e pesado que levávamos demorámos quase uma hora a chegar. O que foi um mau começo, porque quando chegámos já passava da hora prevista, o que pôs alguma irritação na feia catadura do nosso examinador.
                      Como homem direto e austero que era, o Padre João entrou a matar. Estávamos pouco seguros mas fomos tentando responder às perguntas que segundo ele só podiam ter uma resposta clara e objetiva. Quando tentávamos responder por pressupostos ou dúvidas ele cortava-nos a palavra e dizia que o que estava no catecismo eram dogmas, palavra que na minha expressão aflita, o Abade João viu que eu não conhecia, tendo-me então explicado que dogmas eram verdades absolutas e ele queria que lhe respondessem sim ou não, nunca talvez.
                      O exame não corria nada bem mas ainda piorou. Foi quando o Sr. Abade me pediu que lhe explicasse o mistério da Santíssima Trindade. Eu só me lembrava da lenda em que se conta que Santo Agostinho andava na praia a meditar e a tentar compreender esse mistério quando encontrou um menino que com a concha da mão passava água do mar para uma pocinha que tinha feito na areia. O grande teólogo achou curiosa a azáfama do menino e perguntou-lhe o que estava a fazer. Este respondeu que ia tirar toda a água do mar para a sua pequena poça. O Sábio sorriu e disse ao menino que isso era impossível ao que a criança respondeu que a cabeça de Santo Agostinho era demasiado pequena para nela caber todo o segredo da Santíssima Trindade. Não sei se a minha versão da história era correta mas o meu examinador, embora com ar de contrariado, deixou-me contá-la quase até ao fim, altura em que me interrompeu para me dizer que não queria ouvir lendas mas apenas pretendia que eu lhe explicasse em que consistia o referido mistério. Aí eu embatuquei. O meu irmão, que tinha estudado mais, tentou ajudar e começou a dar uma resposta mas, devido ao seu estado nervoso, enredou-se de tal maneira no Espírito Santo, no Pai e no Filho que tudo acabou numa grande confusão.
                    O que mais temíamos estava a acontecer. O Sr. Abade ficou vermelho de irritação e fez ecoar a sua voz tonitruante na grande igreja vazia: - que parelha de palermas vocês me saíram. Primeiro faço a pergunta a um que fica mudo como uma pedra, depois responde o outro que mais valia ficar calado.
                     A examina prolongou-se ainda por mais alguns penosos minutos durante os quais a má disposição do Padre João contribuía para a nossa péssima prestação e vice-versa. Chegámos, finalmente, ao momento do veredito e, para as nossas simples e pobres cabecitas, este não podia ter sido mais terrível. O velho Abade pegou em cada um de nós pela gola do casaco e esfregou fortemente as nossas caras  na pele de raposa da gola da sua vetusta samarra.  Foi a suprema humilhação e foi com lágrimas nos olhos que ouvimos o nosso algoz dizer:  -  aqui vai uma raposa para cada um. Mereciam ainda mais por chegarem aqui sem saberem nada.
                    Para mim, que na escola estava sempre entre os  primeiros e que me habituara a ouvir   os elogios de professores e colegas,  foi um choque imenso receber assim um chumbo ou, como se dizia naquele tempo e o Padre  fizera questão de o reforçar simbolicamente, apanhar uma raposa.
                      No regresso a casa vingámo-nos do nosso severo juiz dizendo o pior que conseguimos dele e da sua injustiça. No entanto, a nossa maledicência, mesmo que ele a tivesse ouvido, não lhe teria feito grande mossa de tal maneira eram ingénuas e frágeis as pragas que lhe rogámos. Tínhamos sido educados para respeitar. Respeitar toda a gente, especialmente os mais velhos, os pais, os avós, os tios, os professores e, muito lá em cima – como representante de Cristo na Terra- o Padre.
                    Em casa  não contámos tudo. Tentámos dourar a amarga pilula mas, para a nossa Mãe, que nos conhecia tão bem por dentro como por fora, dissemos o suficiente para ela compreender o tamanho do nosso vexame. Repreendeu-nos por não termos estudado mas quando, mais tarde, acabámos por contar a esfregadela na pele da raposa, não se conteve e desatou a rir.  Já o meu Pai e os outros irmãos (éramos sete ao todo) não nos pouparam e passou a Pascoa e a Pascoela e eles continuavam a moer-nos a paciência rindo e brincando com o triste episódio da raposa na examina.

 

            Sérgio Figueiredo