
FOGOS FLORESTAIS
SERÃO OS PORTUGUESES CAPAZES DE PÔR FIM A ESTA CALAMIDADE ANUAL?
É esta pergunta que nas ultimas dezenas de anos tenho formulado
várias vezes e que, infelizmente, continua sem resposta. Primeiro vem a angustia da dúvida após tanta
desilusão e, só depois, chega ao meu espírito uma réstia de esperança. Será que, após tanto erro e tanta incúria,
podemos acreditar que os políticos que temos, mais aqueles que os substituirão,
irão, de uma forma corajosa e determinada, criar politicas inteligentes e
corretas que possam, finalmente, terminar com este flagelo nacional? Quem viver verá.
Mas este ano de 2017 foi o mais terrível de
todos com o seu cortejo de mortes ( 109 até agora), a perda de centenas de
habitações e uma área de floresta ardida que ultrapassa os 500 mil hectares. O
meu receio maior reside no futuro. Será que este ano foi mesmo excecional ou,
pelo contrário, outros virão ainda mais graves?
Só posso prever o pior se as alterações climáticas continuarem a tornar
o nosso planeta mais quente e mais seco e se o nosso sistema de combate aos
fogos não for, radicalmente, melhorado.
Faço estas
reflexões enquanto subo, lentamente, que a escalada é difícil e o fôlego já vai
faltando, a encosta da Serra da Arada, cercado pelos restos calcinados do que
foram árvores e arbustos pujantes de vida, respirando o ar acre ainda contaminado
pelo fumo e pela cinza que cobre o chão num cenário triste, negro como a morte.
Vou
procurar reconhecer as pequenas propriedades da família que arderam pela
terceira vez nos últimos trinta anos.
Também desta vez não tínhamos cedido ao desânimo e, não dando ouvidos
aos vizinhos que nos avisavam do inevitável regresso do fogo, ajudados pelo
entusiasmo dos filhos, plantámos
carvalhos, castanheiros, cerejeiras-bravas e outras árvores que pudessem mudar o
paradigma do que tem sido a desgraça da floresta portuguesa atual: o pinheiro bravo conjugado com o
eucalipto. Com muitos sacrifícios e muito carinho conseguimos pequenas manchas de uma promessa de floresta
recheada por estas árvores autóctones
que, além de me extasiar quando a comtemplava, era uma amostra do que, na minha opinião, se deveria fazer
pelo país fora. Não valeu a pena. O
sonho ardeu de novo. Mas, para surpresa
minha, ouvi há pouco um dos meus filhos dizer que convocou uns amigos para o
ajudarem a começar a plantar novas árvores.
Tinha pensado em desistir, mas, perante esta persistência da gente mais
nova, vou tentar mais uma vez. Talvez o clima, contra todas as previsões, se
torne menos propício aos incêndios e quem sabe se, daqui a dez anos, os nossos
políticos tenham conseguido proteger convenientemente
a nossa amada floresta. Se ainda por cá
andar nessa altura, trarei uma foto para vos mostrar a minha mini floresta de
carvalhos e afins.
Sérgio Figueiredo
( Texto publicado no Boletim da AATIB ( Associação dos Antigos Trabalhadores da Império Bonança) do mês de Novembro de 2017)