UM CONTO DE INVERNO
Era Novembro e a noite estava fria.
Pelo menos não chove, pensou o Vicente. Ele gostava de encontrar sempre
um lado positivo em todas as situações. Sentia-se confortável quando o conseguia e, em cima do seu cartão,
enrolado nos dois cobertores que, apesar de muito velhos e muito sujos, (
aliados ao casaco e aos dois pares de calças) o protegiam do frio, sentia-se em
paz e pronto para uma boa noite de sono.
Desde que se habituara à vida de “cão vadio”, como ele próprio se
designava, ( nunca gostou, nem ele sabia explicar porquê, que lhe chamassem sem-abrigo), as suas expectativas baixaram de tal maneira que
se, em cada um dos seus longos dias, conseguisse algo de comer ao meio-dia e à
noite já tudo estava bem. Na sua cabeça,
onde nunca existira muita inteligência, reinava agora alguma confusão o que, de
certa forma, lhe agradava. Assim quase
não pensava nem recordava o passado que ele queria esquecer. Mas,
naquela gelada noite, o sono não vinha
como de costume. Tentou encontrar uma explicação para aquela insónia inesperada. Depois de muito
esforço, vislumbrou algo, ainda pouco nítido, que talvez fosse a causa da inquietação
que não o deixava dormir. Reviu aquela menina bonita e alegre que ele vira
entrar, pelo braço da mãe, numa loja da Baixa.
Vestia um casaco azul e no cabelo claro usava uma fita branca. Aquela visão, de apenas alguns segundos,
provocou uma forte emoção no Vicente. As lágrimas molharam-lhe os velhos olhos
cansados e um soluço subiu-lhe à garganta. O passado regressara para o fazer sofrer. Aquela criança
pareceu-lhe a filha que vira pela última vez muitos anos atrás.
A descida aos infernos começou, lentamente, quando ainda era um homem
forte e saudável. Casara na sua aldeia transmontana e, para fugir à miséria, migrou
para Lisboa. Quando conseguiu fazer uma barraca na zona oriental da cidade,
mandou vir a mulher e a filha pequenina.
A vida era dura para aquela família, como era para todos os pobres e desenraizados aldeões que
vinham para a cidade sem ajudas nem subsídios,( naquele tempo nem se sabia o
que isso era…) Nada que assustasse o
Vicente que sempre fora afoito. Conseguiu
arranjar trabalho na construção civil e, com muito esforço, ultrapassou algumas
das suas limitações e tornou-se um bom operário. Foi a fase melhor da sua vida. Gostava da mulher
e adorava a filha – sentia-se feliz.
Tudo começou a correr mal quando, acompanhado pelos colegas de trabalho,
começou a ser assíduo nas tabernas da cidade. Ao fim do dia, com o corpo moído
de tanto trabalho, sentia-se com direito
a uma pausa saborosa na conversa animada com os amigos. Os problemas começaram porque neste ambiente
bebia-se muito. E o Vicente que sempre fora um bom copo na aldeia natal, fez
jus à sua fama e depressa se deixou apanhar pelo vício . É fácil imaginar o que,
nos anos seguintes, se passou com o nosso amigo e com a sua família. As bebedeiras foram-se tornando quase
consecutivas e foi despedido. Sentiu-se
desmoralizado e, abandonado pelos amigos, mais se entregou ao vinho. Nunca mais
arranjou trabalho fixo e os biscates ocasionais não chegavam para sustentar a família. Passou depois a bater na
mulher. A filha, que sempre fora muito próxima do pai a
quem amava muito, sofreu uma desilusão tão grande que nunca mais foi a menina simpática
e alegre que fora até então.
A
mulher abandonou-o e regressou à aldeia levando a filha. Agora, na sua miserável cama, o Vicente
recordava o dia em que as vira partir. A
filha com o seu casaquito azul e com uma fita a compor o seu cabelo claro, não
lhe sorrira mas acenara-lhe um último adeus. Lembrava-se de ter olhado aquele comboio com
ódio. Era ele que levava para sempre as suas hipóteses de voltar a ser feliz.
Passados alguns anos pensou em voltar à aldeia natal. Conseguiu o dinheiro para a viagem mas, quando
se dirigia para a estação, perdeu a coragem
e voltou para trás. Sabia o que o esperava.
No lugarejo pequeno toda a gente sabia a sua história. Seria recebido
como um bêbado que só fizera mal à
mulher e à filha. Ninguém lhe perdoaria, nem os irmãos com quem nunca mais
falara.
Ficaria para sempre na cidade grande, onde
num dia, já longínquo, chegara cheio de vida e ilusões e onde conquistara a
felicidade para, depois, de uma forma estúpida,
a perder.
A
velha barraca, o seu porto de abrigo, que ele fora melhorando aos poucos ao
ponto de já lhe chamar , com orgulho, a sua casa, foi mais uma das suas
dolorosas perdas. A divida que contraíra
na mercearia do Alcino era grande para as suas quase nulas posses embora, para
o próspero comerciante , fosse uma ninharia. Este, no entanto, que com a idade se tornara
avarento, não admitia perder um tostão que fosse e passou a ameaçar o Vicente,
sempre que o via, dizendo-lhe que o metia na prisão se ele não lhe
pagasse. A palavra prisão fazia tremer o
nosso amigo. Nunca se atrevera a roubar, mesmo em momentos desesperados, por
medo de ser preso. Assim, quando um
vizinho, aproveitando-se da sua bebedeira
lhe ofereceu uma pequena quantia pela sua barraca, aceitou, pagou finalmente ao Alcino, e condenou-se
a viver na rua a partir daí.
Agora, com os pés cada vez mais frios,
sabia que se não adormecesse depressa já não dormiria nessa noite. Procurou
esquecer as coisas tristes do passado e agarrar-se a algo mais alegre que o
ajudasse a adormecer. Foi quando se
lembrou da menina Joana e da promessa
que, na véspera, lhe fizera: um cobertor quase novo. Era uma boa expectativa.
Ficaria contente se a promessa se cumprisse, e a menina Joana não costumava
falhar-lhe, pois um dos seus cobertores
já tinha dois grandes buracos. Já quase
a dormir ainda recordou o acontecimento
mais agradável que lhe acontecera nos
últimos tempos: o senhor Presidente da Republica dera-lhe um forte aperto de
mão e perguntara-lhe o nome. Dizer o seu nome a uma pessoa tão importante
deu-lhe uma felicidade enorme.
Vicente! - dissera em voz clara. Sentiu-se gente outra
vez.
Depois
o Presidente desejou-lhe sorte e partiu apressado na carrinha branca com a
menina Joana e os seus amigos. Ficou
feliz e a pensar como era bom existir aquela gente boa que o ajudavam sem pedir
nada em troca e que, por muita consideração que tinham pela sua pessoa, até lhe
tinham trazido a visita do Presidente da Republica.
Adormeceu por fim e teve um sonho bonito pouco depois. A menina Joana tinha chegado perto dele, aconchegara-lhe
os cobertores, dera-lhe um beijo afetuoso e dissera num sussurro: meu querido
pai!.
Sérgio Figueiredo