É sempre com
alguma nostalgia, mas também com prazer, que recordo as Páscoas da minha infância. A
vida na minha aldeia, naquele tempo,
apesar da pobreza, era alegre e cheia de vitalidade. Os níveis de natalidade que agora são um
problema por serem demasiado baixos, eram, então, um problema também mas por
serem demasiados altos. Mas nós, crianças e jovens, tínhamos uma vida simples,
descontraída e feliz, bem integrados naquela
sociedade fechada com as suas regras e as suas tradições. Uma das tradições de que nós mais gostávamos
era a Páscoa. Era uma festa que começava logo a seguir ao Carnaval com a
vivência da Quaresma que para os mais religiosos era um tempo de austeridade
mas, para os mais novos, trazia costumes bem interessantes como a “reza” e as
“pulhas”.( 1)
Seguia-se o
Domingo de Ramos, em que competíamos para saber quem conseguia levar até à
Igreja o maior e mais enfeitado ramo.
Depois vinha a desagradável “examina”( uma espécie de exame anual sobre
os conhecimentos da doutrina católica feito pelo Padre), a semana santa com os
seus rituais e, finalmente, o Domingo de Páscoa.
Uma das coisas
boas que esta festa nos trazia era a hipótese de estrear, nesse dia, uma peça de roupa ou
calçado. Vestir uma camisa, umas calças ou um vestido “novinho em folha” dava-nos
uma alegria imensa por ser uma coisa raríssima pois estávamos habituados a só
vestir roupa usada, quase sempre herdada dos irmãos mais velhos. Por vezes
acontecia que, após tanta expectativa, vinha a desilusão porque os nossos pais,
apesar dos seus esforços, não conseguiam cumprir a promessa porque o dinheiro era pouco e os filhos eram muitos.
A visita
pascal, que noutras terras se chama compasso, começava cedo.
A criançada levantava-se excitada com os preparativos para bem receber o
Senhor Abade e comitiva. Varríamos a rua, era a única vez em cada ano,
enfeitávamos o chão com flores e buxo e a minha mãe punha a melhor toalha de
linho numa pequena mesa. Ali colocávamos um pratinho com amêndoas, uma laranja
com uma moeda grande espetada e alguns bolos.
A expectativa crescia com as notícias que iam chegando sobre a
aproximação da caravana pascal. - já vem na Mota, - já saiu da casa do
Fernandes, e a espera era vivida ao minuto, olhando sempre para o
fundo da nossa rua, que era bem comprida, onde, brevemente (por vezes era mais
de meia-hora) iria surgir o homem da campainha com a sua opa branca. Mais atrás
vinha o Juiz da Igreja (2) com a cruz, o encarregado das Finanças ou seja:
aquele que recebia a côngrua(3) mais dois ajudantes e, por último,(4) o homem
mais importante da freguesia, o Senhor Abade. Vestia sempre a sua batina negra que quase lhe
tapava os sapatos e que tinha botões desde o colarinho até aos pés. Na visita
pascal trazia um chapéu redondo com uma pequena borla e uma sobrepeliz de renda
branca. Impunha respeito e ele gostava
disso. Quando entrava na nossa casa encontrava
toda a nossa família, que era bem grande, ajoelhada em semicírculo para beijar
a Santa Cruz. Após a bênção e os rápidos cumprimentos aos adultos, ele metia a mão num fundo bolso da
sua batina e dava uma amêndoa a cada criança.
De seguida pegava no nosso pratinho das amêndoas e despejava-o para o
mesmo bolso. Descia as nossas escadas
quase a correr, pois as aldeias a
percorrer nesse dia eram muitas e o tempo escasseava.
E estava quase
a acabar a nossa Páscoa. Faltava só o
almoço onde os cozinhados da minha mãe nos deliciavam e que, ainda hoje,
recordo com saudade. Este era o dia do ano em que mais bolos havia em minha
casa e as crianças desforravam-se à sobremesa já a pensar em como iria ser boa a
Páscoa do ano seguinte.
Sérgio Figueiredo
Notas: (1) – A reza era um jogo ou uma ingénua brincadeira
em que duas pessoas, geralmente jovens, combinavam “andar à reza”. O jogo consistia em “botar a
reza” primeiro que o adversário e durava a quaresma toda. Por vezes era o princípio de um namorico e
ganhava a prova quem conseguisse ser o último, antes do domingo de Páscoa, a
mandar rezar o amigo. Já as pulhas, embora fossem também uma brincadeira, não
era tão inocente e por vezes trazia problemas entre vizinhos. Reunia-se um
grupo de rapazes, dos mais atrevidos, e
dirigiam-se a um monte ou outeiro perto da aldeia onde com a ajuda de cabaças
(vazias) projetavam a voz distorcida, para não ser reconhecida, e faziam
comentários jocosos e, por vezes maldosos, sobre a vida e os moradores da
aldeia.
(2) – O equivalente a sacristão.
(3) - A côngrua era
uma espécie de imposto que os habitantes da paróquia pagavam anualmente para a
subsistência do pároco e restantes despesas da Igreja. Uma grande parte dos
paroquianos pagavam em espécie: milho, feijão e até ovos.
(4) – Em boa verdade, quem aparecia por último era o sineiro, o
castiço Henriqueto, que transportava um
grande cesto onde recolhia os ovos da côngrua.