segunda-feira, abril 09, 2018

A PÁSCOA NA MINHA ALDEIA

                                                         
 

 

         É sempre com alguma nostalgia, mas também com prazer,  que recordo as Páscoas da minha infância. A vida na minha  aldeia, naquele tempo, apesar da pobreza, era alegre e cheia de vitalidade.  Os níveis de natalidade que agora são um problema por serem demasiado baixos, eram, então, um problema também mas por serem demasiados altos. Mas nós, crianças e jovens, tínhamos uma vida simples, descontraída e feliz, bem integrados naquela  sociedade fechada com as suas regras e as suas tradições.  Uma das tradições de que nós mais gostávamos era a Páscoa. Era uma festa que começava logo a seguir ao Carnaval com a vivência da Quaresma que para os mais religiosos era um tempo de austeridade mas, para os mais novos, trazia costumes bem interessantes como a “reza” e as “pulhas”.( 1)
         Seguia-se o Domingo de Ramos, em que competíamos para saber quem conseguia levar até à Igreja o maior e mais enfeitado ramo.  Depois vinha a desagradável “examina”( uma espécie de exame anual sobre os conhecimentos da doutrina católica feito pelo Padre), a semana santa com os seus rituais e, finalmente, o Domingo de Páscoa.  
        Uma das coisas boas que esta festa nos trazia era a hipótese de  estrear, nesse dia, uma peça de roupa ou calçado. Vestir uma camisa, umas calças ou um vestido “novinho em folha” dava-nos uma alegria imensa por ser uma coisa raríssima pois estávamos habituados  a  só vestir roupa usada, quase sempre herdada dos irmãos mais velhos. Por vezes acontecia que, após tanta expectativa, vinha a desilusão porque os nossos pais, apesar dos seus esforços, não conseguiam cumprir a promessa  porque o dinheiro era pouco  e os filhos eram muitos.
        A visita pascal, que noutras terras se chama compasso, começava  cedo.  A criançada levantava-se excitada com os preparativos para bem receber o Senhor Abade e comitiva. Varríamos a rua, era a única vez em cada ano, enfeitávamos o chão com flores e buxo e a minha mãe punha a melhor toalha de linho numa pequena mesa. Ali colocávamos um pratinho com amêndoas, uma laranja com uma moeda grande espetada e alguns bolos.  A expectativa crescia com as notícias que iam chegando sobre a aproximação da caravana pascal. - já vem na Mota, - já saiu da casa do Fernandes,  e a espera  era vivida ao minuto, olhando sempre para o fundo da nossa rua, que era bem comprida, onde, brevemente (por vezes era mais de meia-hora) iria surgir o homem da campainha com a sua opa branca. Mais atrás vinha o Juiz da Igreja (2) com a cruz, o encarregado das Finanças ou seja: aquele que recebia a côngrua(3) mais dois ajudantes e, por último,(4) o homem mais importante da freguesia, o Senhor Abade.  Vestia sempre a sua batina negra que quase lhe tapava os sapatos e que tinha botões desde o colarinho até aos pés. Na visita pascal trazia um chapéu redondo com uma pequena borla e uma sobrepeliz de renda branca.  Impunha respeito e ele gostava disso.  Quando entrava na nossa casa encontrava toda a nossa família, que era bem grande, ajoelhada em semicírculo para beijar a Santa Cruz. Após a bênção e os rápidos  cumprimentos aos  adultos, ele metia a mão num fundo bolso da sua batina e dava uma amêndoa a cada criança.  De seguida pegava no nosso pratinho das amêndoas e despejava-o para o mesmo bolso.  Descia as nossas escadas quase a correr,  pois as aldeias a percorrer nesse dia eram muitas e o tempo escasseava.
       E estava quase a acabar a nossa Páscoa.  Faltava só o almoço onde os cozinhados da minha mãe nos deliciavam e que, ainda hoje, recordo com saudade. Este era o dia do ano em que mais bolos havia em minha casa e as crianças desforravam-se à sobremesa já a pensar em como iria ser boa a Páscoa do ano seguinte.   

 

                      Sérgio Figueiredo

      

Notas: (1) – A reza era um jogo ou uma ingénua brincadeira em que duas pessoas, geralmente jovens, combinavam  “andar à reza”. O jogo consistia em “botar a reza” primeiro que o adversário e durava a quaresma toda.  Por vezes era o princípio de um namorico e ganhava a prova quem conseguisse ser o último, antes do domingo de Páscoa, a mandar rezar o amigo. Já as pulhas, embora fossem também uma brincadeira, não era tão inocente e por vezes trazia problemas entre vizinhos. Reunia-se um grupo de rapazes, dos mais atrevidos,  e dirigiam-se a um monte ou outeiro perto da aldeia onde com a ajuda de cabaças (vazias) projetavam a voz distorcida, para não ser reconhecida, e faziam comentários jocosos e, por vezes maldosos, sobre a vida e os moradores da aldeia.

(2) – O equivalente a sacristão.

(3) -  A côngrua era uma espécie de imposto que os habitantes da paróquia pagavam anualmente para a subsistência do pároco e restantes despesas da Igreja. Uma grande parte dos paroquianos pagavam em espécie: milho, feijão e até ovos.

(4) – Em boa verdade,  quem aparecia por último era o sineiro, o castiço Henriqueto,  que transportava um grande cesto onde recolhia os ovos da côngrua.