sábado, fevereiro 01, 2020


A VIAGEM

Dos puntas tiene el camino e en las dos alguien me aguarda “ (canção chilena)

O dia estava luminoso mas frio e, quando subi para o autocarro, agradou-me a temperatura interior que era amena e acolhedora. Procurei o meu lugar e sentei-me, rezando fervorosamente para que o lugar ao meu lado se mantivesse desocupado até ao fim da viagem. Sonhava com aquelas duas cadeiras só para mim para, confortavelmente, poder pôr o meu sono em dia e, na quase impossível hipótese de não conseguir dormir, abrir o livro que trazia no saco e entrar no mundo queirosiano, onde a fantasia cobria com o seu diáfano manto a crua verdade, e por lá permanecer, bem aconchegado, até ao fim desta comprida viagem.

Tinha pavor de alguns tipos de companheiros de viagem que, algumas vezes, me calharam em sorte… ou azar. Uns falavam sem parar, outros eram tão gordos que quase ocupavam os dois lugares e, uma vez, apanhara uma senhora que exalava uns odores bem desagradáveis, além de ser tão chata que passei toda a viagem a suspirar pelo fim da mesma.

Absorto como estava, mergulhado nestas pouco agradáveis recordações, nem reparei que alguém estava junto ao meu banco e só quando uma voz suave e reticente me disse: dá-me licença, por favor, reparei que uma jovem com um leve, mas simpático, sorriso, aguardava que eu a deixasse sentar no lugar junto à janela, que era o seu, como atestava o bilhete que trazia na mão. 

Um pouco atarantado levantei-me e cumprimentei com simpatia a minha companheira de viagem. Não pude deixar de reparar nos seus bonitos olhos castanhos que iluminavam um rosto  que me encantou. Vestia de forma simples mas onde se notava um toque de bom gosto. Tentei disfarçar a minha satisfação olhando para os outros viajantes mas depressa voltei a cabeça para poder admirar a jovem que me ia fazer companhia nas cinco ou seis horas seguintes.

Ainda não tínhamos saído de Lisboa e já tinha conseguido iniciar uma conversa que se iria manter de uma forma interessante e agradável durante quase toda a viagem. Fomos descobrindo coisas em comum a cada frase e uma onda de simpatia mútua envolveu-nos de tal forma, que nos esquecemos de tudo o que era exterior àquele nosso pequeno espaço. Tínhamos lido e gostado dos mesmos livros, tínhamos sentido a mesma alegria a ver os mesmos filmes que comentávamos com entusiasmo de crianças. Também na música havia cumplicidade e não parámos de elogiar os nossos ídolos, que iam desde os Beatles ao Zeca Afonso, passando por muitos e bons músicos dessa década de 70.  Ambos amávamos a Beira Alta e as suas aldeias pobres e simples, mas encantadoras, onde vivêramos as nossas infâncias.

Senti-me tão próximo daquela moça que não queria que o autocarro andasse depressa, que houvesse um furo ou surgisse uma tempestade que nos atrasasse, para ficar com mais tempo para olhar aqueles bonitos olhos e ouvir a sua voz suave e quase sussurrada. Mas, nestas ocasiões,  acontece sempre o contrário dos nossos anseios e, depressa demais, chegámos à paragem onde a minha jovem companheira desceu do autocarro e se despediu de mim com um caloroso aperto de mão e um sorriso encantador. Creio ter ficado com o número de telefone dela e com o seu nome mas já não tenho a certeza. Sei que prossegui viagem  e, com o aproximar da chegada ao meu destino, fiz um doloroso esforço  para começar a esquecer aquela doce figurinha que me proporcionara uma viagem maravilhosa. Na casa da minha noiva conheci os seus pais que se admiraram pelo meu ar fresco e bem disposto, pouco normal em quem acabara de fazer uma viagem tão longa e aborrecida.

 

Sérgio Figueiredo