A VIAGEM
“Dos puntas tiene el
camino e en las dos alguien me aguarda “ (canção chilena)
O dia estava luminoso mas frio e, quando subi para o
autocarro, agradou-me a temperatura interior que era amena e acolhedora.
Procurei o meu lugar e sentei-me, rezando fervorosamente para que o lugar ao
meu lado se mantivesse desocupado até ao fim da viagem. Sonhava com aquelas
duas cadeiras só para mim para, confortavelmente, poder pôr o meu sono em dia
e, na quase impossível hipótese de não conseguir dormir, abrir o livro que
trazia no saco e entrar no mundo queirosiano, onde a fantasia cobria com o seu
diáfano manto a crua verdade, e por lá permanecer, bem aconchegado, até ao fim
desta comprida viagem.
Tinha pavor de alguns tipos de companheiros de viagem que,
algumas vezes, me calharam em sorte… ou azar. Uns falavam sem parar, outros
eram tão gordos que quase ocupavam os dois lugares e, uma vez, apanhara uma
senhora que exalava uns odores bem desagradáveis, além de ser tão chata que
passei toda a viagem a suspirar pelo fim da mesma.
Absorto como estava, mergulhado nestas pouco agradáveis recordações,
nem reparei que alguém estava junto ao meu banco e só quando uma voz suave e
reticente me disse: dá-me licença, por favor, reparei que uma jovem com um
leve, mas simpático, sorriso, aguardava que eu a deixasse sentar no lugar junto
à janela, que era o seu, como atestava o bilhete que trazia na mão.
Um pouco atarantado levantei-me e cumprimentei com simpatia
a minha companheira de viagem. Não pude deixar de reparar nos seus bonitos
olhos castanhos que iluminavam um rosto
que me encantou. Vestia de forma simples mas onde se notava um toque de
bom gosto. Tentei disfarçar a minha satisfação olhando para os outros viajantes
mas depressa voltei a cabeça para poder admirar a jovem que me ia fazer
companhia nas cinco ou seis horas seguintes.
Ainda não tínhamos saído de Lisboa e já tinha conseguido
iniciar uma conversa que se iria manter de uma forma interessante e agradável
durante quase toda a viagem. Fomos descobrindo coisas em comum a cada frase e
uma onda de simpatia mútua envolveu-nos de tal forma, que nos esquecemos de
tudo o que era exterior àquele nosso pequeno espaço. Tínhamos lido e gostado
dos mesmos livros, tínhamos sentido a mesma alegria a ver os mesmos filmes que
comentávamos com entusiasmo de crianças. Também na música havia cumplicidade e
não parámos de elogiar os nossos ídolos, que iam desde os Beatles ao Zeca Afonso,
passando por muitos e bons músicos dessa década de 70. Ambos amávamos a Beira Alta e as suas aldeias
pobres e simples, mas encantadoras, onde vivêramos as nossas infâncias.
Senti-me tão próximo daquela moça que não queria que o
autocarro andasse depressa, que houvesse um furo ou surgisse uma tempestade que
nos atrasasse, para ficar com mais tempo para olhar aqueles bonitos olhos e
ouvir a sua voz suave e quase sussurrada. Mas, nestas ocasiões, acontece sempre o contrário dos nossos
anseios e, depressa demais, chegámos à paragem onde a minha jovem companheira
desceu do autocarro e se despediu de mim com um caloroso aperto de mão e um
sorriso encantador. Creio ter ficado com o número de telefone dela e com o seu
nome mas já não tenho a certeza. Sei que prossegui viagem e, com o aproximar da chegada ao meu destino,
fiz um doloroso esforço para começar a
esquecer aquela doce figurinha que me proporcionara uma viagem maravilhosa. Na
casa da minha noiva conheci os seus pais que se admiraram pelo meu ar fresco e
bem disposto, pouco normal em quem acabara de fazer uma viagem tão longa e aborrecida.
Sérgio Figueiredo