segunda-feira, junho 05, 2023

 O ALTAR MOR  


VISTO POR UMA CRIANÇA


Lembro-me de, ainda criança, me distrair da missa (que ainda era rezada em latim), e ficar durante largos minutos a observar, com enlevo, os anjinhos anafados e sorridentes, o rosto sereno e lindo da Senhora do Amparo com o menino ao colo e todas as outras pequenas maravilhas que eu ia descobrindo na nossa Igreja de Carvalhais.
Alguém me tinha dito que todo o altar mor tinha sido banhado a ouro e, eu, na ingenuidade dos meus seis ou sete anos, imaginava os operários com grandes baldes de ouro derretido a banharem os santos, os anjinhos e toda a talha do altar. Pensava em como era rica a nossa Igreja e admirava-me o respeito que até os ladrões tinham por ela, porque, com tanto ouro ali exposto, eles não se atreviam a roubá-lo.
Acordava do meu devaneio com o som estridente da campainha com que o sacristão anunciava a consagração da hóstia ou, quando um dos meus irmãos mais velhos me davam uma forte cotovelada trazendo-me, assim, de volta à missa comprida e chata do velho Padre João Nepomuceno.
Passados tantos anos, continuo a gostar do Altar Mor e, mesmo se me faltar a devoção, é com um sentimento bom de alegria nostálgica que fico de novo, absorto e extasiado, olhando os meus velhos amigos anjinhos, eternamente crianças, que parecem querer falar comigo na sua alegria permanente e me perguntam: Então, por onde tens andado que nunca mais vieste brincar connosco?

Sérgio Figueiredo

( Texto publicado no jornal Comunidade Cristã de Carvalhais de 30 de junho de 2006)