terça-feira, dezembro 04, 2007

Onde estás

É mentira!
Tu não estás aí.
É o teu corpo, a tua cara larga e calma,
Até os teus joanetes bem pronunciados lá estão!
Mas onde está o teu sorriso?
Onde está a tua alma, o teu ser, o teu espírito?
Ausentaram-se para parte incerta...
Enquanto o teu corpo trava um combate brutal
Tu aguardas pairando
Diluído no nevoeiro das manhãs de Outono
Ou no sorriso inocente das crianças?

Quero-te de volta ansiosamente
Mas tenho as mãos nuas para te ajudar.

Que Deus, vendo todo o amor
Que tantos sentem por ti
Nos deixe de novo sentir o calor do teu abraço
E ver os teus olhos molhados pelo reencontro.

quarta-feira, novembro 28, 2007



Ah! arrancar às carnes laceradas

Seu mísero segredo de consciência!

Ah! poder ser apenas florescência

De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,

De ramos graves, plácidos, absortos

Na mágica tarefa de viver

Quem nos deu asas para andar de rastos?

Quem nos deu olhos para ver os astros

Sem nos dar braços para os alcançar?!

Florbela Espanca

sexta-feira, novembro 16, 2007

Tenho um Honda ou um Herbie?






O Zé acaba de perfazer a bonita idade de 65 anos. É um número simpático pelo qual muita gente anseia desesperadamente para passar à reforma. No entanto, não é esse o caso do meu caro irmão. Vai continuar a trabalhar, estoicamente, porque se sente cheio de força e quer ajudar o Sócrates a equilibrar as contas da Segurança Social.
O Zé é único e eu gosto dele assim. Telefonei-lhe ontem para lhe dar os parabéns. Falámos do nosso anseio mútuo de ver o Tónio melhor e de regresso a casa e, quase de seguida, chegámos a um dos nossos temas favoritos: carros.
Combinámos então que ele viria a minha casa para a Teresa experimentar o novo brinquedo da Valentina: o "Esperto".
Foi certamente esta conversa que me levou a um sonho delirante e divertido que tive esta noite:
O Zé chegou a minha casa, bem disposto como sempre, mas cheio de pressa porque tinha que ir trabalhar. O avião partia daí a poucas horas e ele precisava de ir para o aeroporto. Estranhamente ele não tinha ali o seu carro e pediu-me para eu o levar pelo menos ao comboio a Paço de Arcos. Prontifiquei-me a transportá-lo até Lisboa já que se fosse de transportes ficaria certamente em terra.
Partimos e pouco depois apercebi-me que ia a conduzir o meu velho e querido Honda Civic de forma bastante bizarra; estava em pé, como nos eléctricos antigos.
O Zé achou graça e quis também conduzir metendo-se à minha frente. Criou-se uma certa confusão com a mudança do condutor de tal maneira que, subitamente, estávamos os dois fora do carro. Eu fiquei aflitíssimo mas o Zé desmanchava-se a rir. No entanto o Honda parecia controlar a situação. Havia imensos carros que vinham em sentido contrário, outros que seguiam atrás dele e ainda outros à sua frente. Eu tentava correr mas, como por vezes nos acontece nos sonhos, não conseguia sair do mesmo sítio. O Zé parecia não sofrer da mesma parilisia e eu suplicava-lhe que acudisse ao meu carrinho mas ele só se ria e chamava-me a atenção para a maneira perfeita como o velho Civic se conduzia a si mesmo. Parecia alguém cheio de personalidade e sabedoria que resultavam da experiência acumulada ao longo dos kilómetros e dos anos. Lembrei-me do Herbie, o carocha simpático daquele divertido filme dos anos setenta.
Mas continuava assustado com o que pudesse acontecer e, vendo que o Zé continuava na galhofa e não me ajudava, gritei-lhe com toda a gana: merda pra ti Zé!!!
Acordei de imediato, talvez chocado pela frase. Creio que nunca tinha mandado o Zé para aquelas bandas, pelo menos nos últimos cinquenta anos. Mas fiquei com pena de não saber o resto da história. Será que o Honda se foi embora, livre enfim dos meus pés e das minhas mãos que o oprimiam, ou voltou para trás na próxima rotunda e, obediente e atencioso para com o seu patrão, parou suavemente junto a mim, acendendo e apagando as luzes como tinha aprendido com o seu velho amigo Herbie.
Nunca o saberei mas sei que a partir de hoje vou olhar para o meu carro com outros olhos e com mais carinho e respeito. Por outro lado, a imagem de uma certa pessoa por quem eu tinha montanhas de respeito ficou um tanto abalada!!!

terça-feira, novembro 13, 2007

Mais uma tentativa


Vou fazer hoje mais uma tentativa para ultrapassar a aversão, ou a preguiça, ou a letargia, ou seja lá o que for que me tem impedido de voltar ao convívio com os meus leitores que, embora poucos, são bons amigos que não merecem esta minha deserção do campo bloguistico.
Creio que me aconteceu o que eu chamaria" o mal do escritor". Não que eu seja escritor mas, o que me levou a deixar de escrever neste blogue deve ser o que acontece por vezes aos escritores. Poder-se-á chamar-lhe falta de inspiração mas, creio eu, é mais do que isso. É a sensação de que nada vale a pena, de que já está tudo dito,de que tudo o escrevermos não vai ser interessante para os leitores porque é um "dejá vu".
No entanto, quando nos decidimos a recomeçar e a emoção toma conta de nós à medida que as palavras e as frases vão surgindo no ecran, tudo volta a ser possível e a esperança renasce pujante e cheia de promessas.
Veremos o que o futuro nos reserva mas vou tentar não ficar outra vez tanto tempo sem falar convosco.
Até breve!