
O Zé acaba de perfazer a bonita idade de 65 anos. É um número simpático pelo qual muita gente anseia desesperadamente para passar à reforma. No entanto, não é esse o caso do meu caro irmão. Vai continuar a trabalhar, estoicamente, porque se sente cheio de força e quer ajudar o Sócrates a equilibrar as contas da Segurança Social.
O Zé é único e eu gosto dele assim. Telefonei-lhe ontem para lhe dar os parabéns. Falámos do nosso anseio mútuo de ver o Tónio melhor e de regresso a casa e, quase de seguida, chegámos a um dos nossos temas favoritos: carros.
Combinámos então que ele viria a minha casa para a Teresa experimentar o novo brinquedo da Valentina: o "Esperto".
Foi certamente esta conversa que me levou a um sonho delirante e divertido que tive esta noite:
O Zé chegou a minha casa, bem disposto como sempre, mas cheio de pressa porque tinha que ir trabalhar. O avião partia daí a poucas horas e ele precisava de ir para o aeroporto. Estranhamente ele não tinha ali o seu carro e pediu-me para eu o levar pelo menos ao comboio a Paço de Arcos. Prontifiquei-me a transportá-lo até Lisboa já que se fosse de transportes ficaria certamente em terra.
Partimos e pouco depois apercebi-me que ia a conduzir o meu velho e querido Honda Civic de forma bastante bizarra; estava em pé, como nos eléctricos antigos.
O Zé achou graça e quis também conduzir metendo-se à minha frente. Criou-se uma certa confusão com a mudança do condutor de tal maneira que, subitamente, estávamos os dois fora do carro. Eu fiquei aflitíssimo mas o Zé desmanchava-se a rir. No entanto o Honda parecia controlar a situação. Havia imensos carros que vinham em sentido contrário, outros que seguiam atrás dele e ainda outros à sua frente. Eu tentava correr mas, como por vezes nos acontece nos sonhos, não conseguia sair do mesmo sítio. O Zé parecia não sofrer da mesma parilisia e eu suplicava-lhe que acudisse ao meu carrinho mas ele só se ria e chamava-me a atenção para a maneira perfeita como o velho Civic se conduzia a si mesmo. Parecia alguém cheio de personalidade e sabedoria que resultavam da experiência acumulada ao longo dos kilómetros e dos anos. Lembrei-me do Herbie, o carocha simpático daquele divertido filme dos anos setenta.
Mas continuava assustado com o que pudesse acontecer e, vendo que o Zé continuava na galhofa e não me ajudava, gritei-lhe com toda a gana: merda pra ti Zé!!!
Acordei de imediato, talvez chocado pela frase. Creio que nunca tinha mandado o Zé para aquelas bandas, pelo menos nos últimos cinquenta anos. Mas fiquei com pena de não saber o resto da história. Será que o Honda se foi embora, livre enfim dos meus pés e das minhas mãos que o oprimiam, ou voltou para trás na próxima rotunda e, obediente e atencioso para com o seu patrão, parou suavemente junto a mim, acendendo e apagando as luzes como tinha aprendido com o seu velho amigo Herbie.
Nunca o saberei mas sei que a partir de hoje vou olhar para o meu carro com outros olhos e com mais carinho e respeito. Por outro lado, a imagem de uma certa pessoa por quem eu tinha montanhas de respeito ficou um tanto abalada!!!