terça-feira, maio 21, 2013

A NOITE DE FADOS

Março marçagão, de manhã cara de cão, ao meio-dia cara de rainha,à tarde  cara de fuinha e , à noite, corta como a foicinha”

Foi reconstruindo mentalmente este adágio, que ouvi há muitos anos,  já não sei a quem, que subi a Morais Soares, virei para a Paiva Couceiro e atravessei Sapadores.  A minha memória decidiu ir às gavetas do fundo buscá-lo porque,  aquele dia, não podia desmentir que tinha nascido em Março. Tinha feito várias caras e a que agora fazia não era nada agradável – devia ser a de fuinha.   Chovia, estava frio e as árvores despidas e esquálidas baloiçavam ao sabor de forte vento, quando  cheguei ao Largo da Graça.  Para condizer com o tempo, a minha disposição não era das melhores e, além disso,  eu estava com pressa, aquela pressa que eu costumo ter e que talvez tenha a ver com o ambiente citadino ou com o meu stress de estimação, ou então, porque me queria livrar o mais rapidamente possível de tarefas pouco agradáveis. Só sei que  tinha tanta pressa que estacionei o carro no primeiro buraco que vi no parque de estacionamento.  Desconfiei um pouco porque  razão aquele lugar estava ali à minha espera quando se viam várias pessoas circulando ansiosas em busca do ambicionado espaço para largar a viatura e não o ocupavam.  Mas a tal pressa disse-me que não havia motivo para desconfianças, que tinha que me despachar. Fui a uma loja de móveis e depois fui matar a sede num pequenino café onde a lentidão do empregado que me serviu uma água me exasperou. Afinal eu estava com pressa e as pessoas faziam de propósito para me atrasar. Por este andar eu não conseguia bater o record nacional de rapidez a visitar mobílias e a beber águas minerais. Quando regressei ao carro quase ia tendo um ataque – alguém tinha deixado o seu automóvel no único sítio por onde eu podia sair.  Talvez fosse o efeito da  minha neura  ou da minha imaginação alucinada, mas pareceu-me ver o meu carro a rir-se com os outros, gozando com a minha cara e colando-se cada vez mais aos vizinhos , muito aconchegado e quentinho. Sacudi a cabeça para afastar tais disparates  e enfrentei o problema.  Pareceu-me tarefa impossível conseguir tirar dali o  carro mas ainda tentei. Os sensores desataram numa berraria a chamar-me maluco porque quase  batia no carro da frente ou no de trás e, se me esforçasse ainda batia nos dos lados. Saí do carro completamente desorientado. Estranhamente, não havia naquele parque qualquer arrumador, dos tais que, quando não são precisos, nos chateiam com as suas desnecessárias ajudas para nos levarem uma moeda.  Ainda  se eu não tivesse tanta pressa… Estava, fora do carro, a  analisar a situação, quando um senhor que passava se deixou compadecer  pelo meu ar infeliz  e se prontificou a ajudar-me a tirar dali o carro.  Disse-lhe que certamente não o conseguiria mas ele convenceu-me a tentar.E, assim, - venha, venha, mais, mais, alto, agora para trás, agora para a frente – ao fim de cinco minutos de manobras de risco, consegui tirar dali o carro sem riscos graças ao bom samaritano que me tinha aparecido em tão desesperada hora.Talvez fosse um anjo que alguém, que estava no Céu a assistir à cena, me tenha enviado expressamente em meu auxílio.Fiquei quase convencido disso quando me lembrei que estava no Largo da Graça - local onde, suponho eu, mesmo os desgraçados e os sem graça nenhuma, devem ser agraciados   -  mas,  olhando melhor para o homem que me ajudou, vendo os seus modos simples e o seu ar bondoso, negando a bebida que me propus pagar-lhe, reconheci nele um ser humano como eu, um irmão, um amigo, apenas um pouco diferente das pessoas que continuavam a passar indiferentes por ser mais generoso ou porque estava na sua natureza ser prestativo para toda a gente, até para aquele bacano que tinha o carro entalado e estava cheio de pressa para ir a uma noite de fados com os amigos que iria começar precisamente daí a duas horas.

Sérgio Figueiredo