A NOITE DE FADOS
“Março marçagão, de manhã cara de cão, ao meio-dia cara de rainha,à tarde cara de fuinha e , à
noite, corta como a foicinha”
Foi reconstruindo
mentalmente este adágio, que ouvi há muitos anos, já não sei a quem, que subi a Morais Soares,
virei para a Paiva Couceiro e atravessei Sapadores. A minha memória decidiu ir às gavetas do
fundo buscá-lo porque, aquele dia, não podia
desmentir que tinha nascido em Março. Tinha feito várias caras e a que agora
fazia não era nada agradável – devia ser a de fuinha. Chovia,
estava frio e as árvores despidas e esquálidas baloiçavam ao sabor de forte
vento, quando cheguei ao Largo da Graça. Para condizer com o tempo, a minha disposição
não era das melhores e, além disso, eu
estava com pressa, aquela pressa que eu costumo ter e que talvez tenha a ver
com o ambiente citadino ou com o meu stress de estimação, ou então, porque me
queria livrar o mais rapidamente possível de tarefas pouco agradáveis. Só sei
que tinha tanta pressa que estacionei o
carro no primeiro buraco que vi no parque de estacionamento. Desconfiei um pouco porque razão aquele lugar estava ali à minha espera
quando se viam várias pessoas circulando ansiosas em busca do ambicionado
espaço para largar a viatura e não o ocupavam. Mas a tal pressa disse-me que não havia motivo
para desconfianças, que tinha que me despachar. Fui a uma loja de móveis e
depois fui matar a sede num pequenino café onde a lentidão do empregado que me
serviu uma água me exasperou. Afinal eu estava com pressa e as pessoas faziam
de propósito para me atrasar. Por este andar eu não conseguia bater o record nacional
de rapidez a visitar mobílias e a beber águas minerais. Quando regressei ao
carro quase ia tendo um ataque – alguém tinha deixado o seu automóvel no único
sítio por onde eu podia sair. Talvez
fosse o efeito da minha neura ou da minha imaginação alucinada, mas
pareceu-me ver o meu carro a rir-se com os outros, gozando com a minha cara e
colando-se cada vez mais aos vizinhos , muito aconchegado e quentinho. Sacudi a
cabeça para afastar tais disparates e
enfrentei o problema. Pareceu-me tarefa
impossível conseguir tirar dali o carro
mas ainda tentei. Os sensores desataram numa berraria a chamar-me maluco porque
quase batia no carro da frente ou no de
trás e, se me esforçasse ainda batia nos dos lados. Saí do carro completamente
desorientado. Estranhamente, não havia naquele parque qualquer arrumador, dos
tais que, quando não são precisos, nos chateiam com as suas desnecessárias
ajudas para nos levarem uma moeda. Ainda
se eu não tivesse tanta pressa… Estava,
fora do carro, a analisar a situação,
quando um senhor que passava se deixou compadecer pelo meu ar infeliz e se prontificou a ajudar-me a tirar dali o
carro. Disse-lhe que certamente não o
conseguiria mas ele convenceu-me a tentar.E, assim, - venha,
venha, mais, mais, alto, agora para trás, agora para a frente – ao fim de cinco
minutos de manobras de risco, consegui tirar dali o carro sem riscos graças ao
bom samaritano que me tinha aparecido em tão desesperada hora.Talvez fosse um anjo
que alguém, que estava no Céu a assistir à cena, me tenha enviado expressamente
em meu auxílio.Fiquei quase
convencido disso quando me lembrei que estava no Largo da Graça - local onde,
suponho eu, mesmo os desgraçados e os sem graça nenhuma, devem ser agraciados - mas,
olhando melhor para o homem que me
ajudou, vendo os seus modos simples e o seu ar bondoso, negando a bebida que me
propus pagar-lhe, reconheci nele um ser humano como eu, um irmão, um amigo,
apenas um pouco diferente das pessoas que continuavam a passar indiferentes por
ser mais generoso ou porque estava na sua natureza ser prestativo para toda a
gente, até para aquele bacano que tinha o carro entalado e estava cheio de
pressa para ir a uma noite de fados com os amigos que iria começar precisamente
daí a duas horas.

Sem comentários:
Enviar um comentário