sexta-feira, outubro 25, 2019


MINHA PRAIA ARDOROSA E SOLITÁRIA


 

                                             Aberta ao grande vento e ao largo mar

                                             tu me viste querer-lhe com a doce

                                             piedade dos sonhos do luar…

 

É com a simpática ajuda do nosso querido mestre Agostinho da Silva e com a primeira quadra do seu poema Praia, que inicio este texto simples que pretende falar-vos  do meu gosto pelas praias deste país.

A nossa costa tem muitas dezenas de praias maravilhosas ao longo de 943 km. Não as conheço todas, infelizmente só visitei uma pequena percentagem apesar de, durante alguns anos ter albergado o sonho, ou a fantasia, de as conhecer todas. Começaria em Caminha e viria descendo, lentamente, em vários anos, até Monte Gordo. Podia até escrever um livro a descrever a experiência mas… fica para quando eu cá voltar, na próxima encarnação.

Das que mais gosto são, de norte para sul, as seguintes: Ofir, Póvoa de Varzim,  Costa Nova, Vagos, Figueira da Foz, Santa Cruz, Ericeira, Foz do Lisandro, Praia das Maçãs, Praia Grande, Guincho, Avencas, Carcavelos, Costa da Caparica, Lagoa de Albufeira, Sesimbra, Figueirinha, Zambujeira do Mar, Aljezur, Meia Praia, Albufeira, Praia da Rocha, Praia do Barril, Cabanas, Manta Rota e Monte Gordo.  Creio serem todas boas praias mas todas diferentes. Daria pano para mangas, mas talvez fosse bem interessante, descrever as caraterísticas de cada uma delas e salientar o que têm de melhor. Fica para o tal livro…                                                                                                                                                        

Confesso que não compreendo as pessoas que, tendo acesso fácil às nossas praias, desperdiçam a oportunidade de desfrutar esta maravilha que temos ao nosso dispor. Talvez seja por eu gostar tanto e lá ter sido tão feliz ao longo dos anos. Comecei na juventude. Acompanhado por cinco ou seis colegas, apanhávamos o comboio até Carcavelos ou até ao Estoril onde jogávamos à bola, dávamos grandes mergulhos e nos divertíamos à grande. Mais tarde foi a vez do namoro e das saudosas barracas, bem acolhedoras e discretas … . Depois os filhos e a delícia de brincar com eles nas ondas, na areia, nas rochas. E finalmente os netos e a repetição da alegria das crianças – uma maravilha.

Por vezes vou só e gosto também. Caminhar junto ao mar, observando as pessoas, (em especial as crianças porque são mais efusivas, mais alegres, mais genuínas, em suma- mais encantadoras) e vivendo o ambiente que, e aqui reside a magia da praia, é sempre animado e descontraído, raramente se ouve uma palavra mais azeda, parece que todas as desavenças, todas as zangas foram esquecidas para que na praia reine a boa disposição e a alegre comunhão familiar. Quando a água não está fria tomo um banho e regresso à toalha onde tenho o prazer de ter à minha espera o Torga ou o Eça ou até, um Steinbeck ou um Hemingway. Com toda esta companhia o tempo passa rápida e agradavelmente e é já com uma ponta de saudade que regresso a casa.  Como prémio por terem viajado comigo pelas minhas praias, aqui fica a parte que falta do poema do venerando Agostinho da Silva que nasceu no Porto em 1906 e faleceu em Lisboa em 1994. Foi filósofo, poeta e ensaísta e uma figura interessantíssima da nossa cultura.

( para melhor compreensão do poema, peço que releiam a primeira quadra, no inicio do texto, e só depois as outras)

                                         Teus cabos se adiantam como braços

                                          para abraçar as ninfas receosas

                                          que fugindo oferecem sobre as vagas

                                          suas nítidas formas amorosas

                                 

                                           Braços paralisados por desejo

                                           que o mundo e sua lei não permitiu

                                           ou suspendeu amor que livre jogo

                                           maior que posse em fugaz tempo viu

 

                                           Como vós me alongo e como tu

                                           areia me ofereço a toda sorte

                                           Por sua liberdade ou por destino

                                           que por só dela seja belo e forte. 

 

Sérgio Figueiredo

 

                                             

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