"Naquela noite de 7 para 8 de Dezembro de 1930, Florbela Espanca avisou a sua criada Teresa de que não ia dormir no seu quarto habitual, do casal, mas noutro mais tranquilo e pediu-lhe para não ser acordada no dia seguinte. Disse-lhe ainda que andava com insónias e que queria dormir em paz... e o máximo de tempo possível.
De manhã, quando foi encontrada, era tarde demais. Na sua mesinha de cabeceira estava um copo de leite e, debaixo do colchão, dois frascos vazios de soporífero. Florbela morrera durante a noite, possivelmente às duas horas da manhã, à mesma hora e no mesmo dia em que tinha nascido, 36 anos antes."
Começa assim a Pequena Biografia de Florbela Espanca, assinada por Rui Guedes, que serve de introdução ao seu livro Poesia Completa.
De facto, a vida de uma das mais importantes poetisas portuguesas foi, desde cedo, marcada pela infelicidade e, mesmo, pela tragédia. Três casamentos falhados, a imposssibilidade de têr filhos, o suicídio do seu adorado irmão Apeles e a incompreensão e rejeição da sociedade austera e fechada que a rodeava, fizeram de Florbela uma pessoa infeliz e revoltada com a sua sorte.
" Apresento-lhe a charneca ao entardecer, a minha triste charneca donde nasceu a minha triste alma. Selvagem e rude, patética e trágica, tem a suprema graça, cheia de amargura, dos infinitamente tristes, a quem foi negada a doçura das lágrimas. É enorme e simples; fala e escuta. O que eu lhe tenho ouvido! O que eu lhe tenho dito! Toda morena do sol, que a queima em verões sem fim é, como eu, uma revoltada, sem gestos e sem gritos."
Neste belo texto pode-se notar como o seu ser atormentado se relacionava de uma maneira tão directa e sentida com a Natureza, neste caso a sua charneca que ela tantas vezes cantou nos seus poemas.
Escreveu Livro de Mágoas (1919),Livro de Soror Saudade (1923) e Charneca em Flor (1930) além de poemas, contos e cartas publicados após a sua morte.
As suas mágoas e desilusões, a morte sempre desejada, o sonho de uma felicidade incorruptivel, serviram-lhe de inspiração para nos deixar páginas de rara beleza onde os seus sonetos sobressaem como verdadeiras obras primas pela sua perfeição, harmonia e profundo sentimento.
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